Crítica: Money Monster e o preço é justo

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Money Monster é um desastre. George Clooney está a assinar um ordenado, o guião de Alan Di Fiore, Jim Kouf e Jamie Linden – com tanto cozinheiro é normal o prato dar para o torto – não chega à mera competência, e a realização de Jodie Foster não consegue estabelecer um tom coerente ao longo dos risíveis 98 minutos de duração.

No filme, um apresentador televisivo, Lee Gates (Clooney), é sequestrado, junto com a sua realizadora (Julia Roberts), durante o seu programa acerca de investimento e finanças.

A página do IMDb regista Money Monster como um thriller, mas “thrilled”, eu não fui. O filme perde-se em momentos de comédia que chocam com a ambição temática da narrativa (como o produtor do homónimo programa a experimentar um gel de tesão instantânea a meio do dito sequestro – sim, isto acontece), e a primeira meia hora esquece-se de estabelecer o sequestrador como alguém a temer, ou com real agência sobre o enredo.

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Isto porque ele não é um verdadeiro vilão.

Kyle Budwell (interpretado com garra por Jack O’Connell) é um investidor irado, que se sente enganado pelo sistema e tenta fazer justiça com as próprias mãos. Esta premissa socialista tem um pouco de John Q. (2002) na sua génese, e pede emprestado mais que um pedaço ao clássico Um Dia de Cão (1975), e ainda faz lembrar a tensão pulp de Cabine Telefónica (2002). Estes filmes têm em comum um protagonista forte e um antagonista ainda mais cativante, que prendem a audiência na tensão contida das suas narrativas.

Já Money Monster apresenta-nos a um Clooney desgraçado, sem ponta por onde se lhe pegue (há uma história de redenção lá pelo meio, mas acaba por não ter peso nenhum na trama), e a um antagonista supostamente primário que depressa se torna num mero palhaço. Isto é propositado: Foster não quer antagonizar a meia classe americana, o investidor capitalista tal como ele é. As ações de Kyle são uma exteriorização da frustração do povo, um sonho molhado tornado realidade que depressa se torna num pesadelo, e que acaba por destruir o arquétipo de herói, o Zé Povinho a mostrar o dedo do meio ao governo.

Tal subversão podia ser interessante se Foster compensasse com um desenrolar do enredo mais original do que este, e com outro vilão mais intrigante a substituir o ridículo Kyle, nem que esse vilão fosse o próprio “sistema”, abstrato como ele é. Infelizmente, isso não acontece, e de repente Money Monster desaba sob o peso da sua própria narrativa, manipulando desajeitadamente a audiência em círculos e círculos que levam à mais óbvia conclusão possível. Podem adormecer à vontade a meio da fita; não perdem nada.

Julia Roberts é fantástica no papel da realizadora Patty Fenn, e tanto ela como O’Connell desperdiçam demasiada energia a legitimar um filme que está para além da salvação. Money Monster partiu de uma ideia ambiciosa e tinha tudo para resultar em explosões e adrenalina constante. Em vez disso, é-nos oferecido um soporífero pesado, destinado a sessões tardias nos canais mais recônditos da própria televisão que tenta parodiar.

1 star

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2 responses to “Crítica: Money Monster e o preço é justo

  1. Lá está… ainda bem que só gastei os 2,50 na festa do cinema para este filme. O que compensou foi uma noite bem passada entre amigos. Mas sim, concordo, não foi um grande filme. E até esperava mais tensão e tal, tendo em conta que o filme foi um dos escolhidos para ser exibido em Cannes.

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