O Portugal Inquieto d’As 1001 Noites

As 1001 Noites deslumbrou em Cannes. Venceu o prémio máximo no festival de cinema de Sydney. Na mais recente edição do Curtas Vila do Conde, recebeu ovações infinitas, foi o alvo de inúmeras discussões após a visualização de cada volume individual, e Miguel Gomes, o realizador do épico, foi tratado como uma autêntica superstar durante a sua estadia em Vila do Conde. Entrevistas, fotografias, autógrafos; as pessoas reuniam-se num burburinho quando ele passava. De óculos de sol e cigarro na boca, a figura de Gomes imortalizou-se.

Tal deve-se, em parte, ao sucesso colossal que o filme tem tido fora do país, mas não esquece a relação de intimidade que este monstro de seis horas estabelece com o espetador assim que termina o seu prefácio energicamente meta, auto-referencial.

Porque, como podem não saber, As 1001 Noites recusa ser uma adaptação fiel à coleção de contos original, que se tornou num grande clássico da literatura árabe. Estes três volumes cinematográficos apropriam-se da sua estrutura para lançarem um olhar satiricamente crítico sobre a cultura portuguesa em guerra económica. A História de Portugal em crise é um conto, dentro do conto de Xerazade, que por sua vez nos tece um sem número de narrativas dentro de narrativas que convalescem o sublime com o ordinário para nos dar um retrato autêntico do nosso país decadente e genuíno, ou genuinamente decadente.

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Mesmo durante o seu curto prefácio, sobre o encerramento de um estaleiro, Gomes conta-nos três ou mais histórias, desde a exterminação de uma praga de vespas asiáticas em Viana, à própria hesitação auto-reflexiva do realizador português em acabar o seu filme. Enredos da populaça lusitana desconsolada, inquieta, do Portugal destroçado pela economia de um governo desgovernado.

A forma como estas transições se processam vem da tradição hipster de Gomes em mesclar o documentário com a ficção, criando uma relação incestuosa que produz um filho abastardado dos dois géneros, tipicamente denominado como docuficção. Aqui, Gomes vai mais além: não se limita a borrifar aleatoriamente as cenas ‘reais’ com acontecimentos ‘ficcionais’; em As 1001 Noites, o real e o irreal aglutinam-se numa cacofonia barroca, surreal, que ganha entoações delirantes graças à estrutura nómada que acompanha o fillme.

Em boa verdade, o que torna especial a epopeia portuguesa que os três filmes traçam (encetada por este primeiro volume, O Inquieto), não é a maneira como complementa a realidade, mas sim como origina um objeto de escape dela própria, sem perder a sua natureza conflituosa com o Estado Português.

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Por exemplo, o hilariante primeiro conto “Os Homens de Pau Feito”, satiriza a presença da troika em Portugal, desde a figura do primeiro ministro (protagonizado por Rogério Samora, impecável na sua pantomina zombeteira), à ministra das Finanças (Maria Rueff) até aos bamboleantes empresários estrangeiros. Estes homens, que vêm decidir a extensão da dívida portuguesa, encontram um “típico” feiticeiro que lhes concede o dom de uma ereção constante. O tom corriqueiro deste trecho é estupidamente português, quase agoniante na sua sátira observadora do nosso quotidiano.

Miguel Gomes é o realizador mais intrinsecamente português que conheço: enfia referências ao Benfica em tudo o que é sítio, deixa grosseiras expressões idiomáticas deslizarem no meio de conversas eloquentes e do discurso estruturado dos guiões, despoletando gargalhadas até na mais sorumbática das pessoas pelo confronto entre estes dois mundos tão diferentes. O uso de não-atores é essencial para transmitir esta dualidade, já que a realidade da classe artística nem sempre é a mesma da da plebe.

A alta classe do cinema de autor choca com a classe baixa do povo Português de uma forma tão natural que é impossível encontrar respingo de julgamento na perspetiva de Gomes para com a populaça: toda a crítica, neste primeiro volume, é canalizada para um Estado opressor e ditatorial (ainda que tentativamente democrático), gordo com a desgraça dos seus trabalhadores.

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Assim, o filme torna-se numa crónica do Portugal em crise, aproveitando a ironia dramática das suas histórias ao mesmo tempo que as combina inextricavelmente com a vertente fantástica da imaginação humana. Em As 1001 Noites, para além das tesões infinitas, há galos que falam, sereias que dão à costa, e conversas dentro do gigante estômago de uma moribunda baleia que têm mais de simbólico do que literal. A pretensão do real não existe: apenas a forma humorística de dialogar com a audiência que sabe melhor que ninguém o que é viver num país sem direção, melancólico e profundamente triste.

Felizmente, Gomes não se deixa perder nessa confusão sofrida de emoções, e talvez a isso se deva a efusiva reação em Cannes e nos outros países: a mensagem de As 1001 Noites é transversal, visto que as repercussões das medidas de austeridade europeias se sentem mesmo nos países menos afetados.

O que temo é que a recepção no seu país de origem não seja tão calorosa quanto o que devia: duvido até que o resultado de bilheteira conjunto dos três volumes equipare o sucesso descomunal que foi o remake de O Pátio das Cantigas, um filme-acontecimento que graças a uma campanha de marketing excelente e à aparência clássica e comercial da sua história apelou a um grande número de portugueses.

Mas não devia ser esse o filme a esgotar as salas de cinema nacionais. O Pátio das Cantigas é um alimento neutro, efémero, que a nossa cultura digere em meia hora e prontamente se esquece. Até podemos gostar dele, e como um qualquer cheeseburger do McDonalds até somos capazes de repetir a experiência, mas no fim acaba por estender a atitude de indiferença do público português com o seu cinema.

Por outro lado, As 1001 Noites e O Inquieto perdura. Não é nenhum prato requintado de pretensões snobistas que me fazem vomitar um bocadinho por dentro; é uma refeição caseira preparada com paixão pelo melhor cozinheiro da tua família. É uma aventura absurda, surreal, mas naturalmente ligada ao nosso contexto presente como povo, como nação, mas mais do que isso: como Humanos.

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