House of Cards e o movimento cénico

Por esta altura já todos ouviram falar do drama político da Netflix House of Cards, ostentando nomes como Kevin Spacey e Robin Wright nos papeis principais, assim como realizadores galardoados como David Fincher e Joel Schumacher. Tenho que confessar que cheguei atrasado à festa, tendo apenas acabado a primeira temporada na semana passada, mas posso afirmar com certeza que fiquei bastante impressionado.

No entanto, o que mais me prendeu não foram as performances asseguradas ou a cinematografia impecável, mas sim a atenção ao detalhe do movimento e posição das personagens em cada cena. Ora, House of Cards lida com políticos americanos e as suas manobras profissionais, que passam por traições, alianças e até homicídios, pelo que muitas das cenas revolvem à volta de personagens a conversar umas com as outras.

E a beleza da simplicidade destas conversas assenta no movimento e nas posições que os intervenientes têm em cena. Levantam-se, aproximam-se, sentam-se, apertam as mãos e desviam o olhar; todo um sem número de pequenos gestos diretos e indiretos que inferem mais do que aquilo que as personagens estão, de facto, a dizer. Passo a exemplificar com uma comparação entre uma cena do e outra do 10º episódio da primeira temporada.

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Aqui temos presente Frank Underwood do lado esquerdo, um congressista a tentar vender uma ideia ao presidente dos Estados Unidos (no centro) e à sua chefe de pessoal Linda Vasquez (do lado direito). Somos imediatamente mostrados visualmente o caminho que a conversa vai tomar, assim como as relações das personagens: Frank e Linda sentam-se de lados opostos pois as suas opiniões divergem em relação ao tópico em questão, e ambos tentam persuadir o presidente a aceitar o seu ponto de vista.

Contudo, numa análise mais atenta, reparamos que Frank senta-se mais perto do presidente que Linda, um claro signo visual da sua preponderância narrativa. Temos também a operação simbólica das duas portas de cada lado do enquadramento: a de Linda está aberta, a de Frank fechada. A porta aberta, neste caso específico, mostra uma saída fácil, mas também insegurança e o quotidiano; desequilibra o plano de outro modo perfeitamente composto. A porta fechada de Frank é um beco, uma asserção ponderada e irredutível que nos mostra o político como confiante na sua postura, certo de que o seu argumento é o vencedor.

No final, o presidente alinha com Frank.

5555Como contraponto temos esta cena de abertura do 10º episódio, passada no mesmo espaço e com as mesmas personagens, mas detendo uma dinâmica completamente diferente de relações. Aqui o presidente já não se senta entre os dois políticos, como um mediador de argumentos, mas sim do outro lado da mesa: por um lado é mais informal, mostrando a maior familiaridade da cena (a cadeira vazia da presidência reforça este aspecto), por outro inferimos de imediato uma divisória entre Frank/Linda e o presidente.

Outro aspecto importante é que o congressista e a chefe de pessoal sentam-se agora no mesmo sofá, pois defendem a mesma posição: a sua relação profissional já é diferente da da cena anterior, mais amigável e consonante. Sem diálogos ou movimentos, somos visualmente levados a inferir as posições políticas destas personagens.

Como bónus, analiso outra cena com estas três personagens do 11º episódio.

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Dois pontos importantes: um terço do enquadramento é ocupado pelas costas do presidente, representando uma parede, um bloqueio ao argumento que se está a passar nesta cena; e a disposição circular das personagens. A mesa que nos passados dois episódios era simbólica de uma divisória aqui não divide ninguém, pois Frank, Linda e o presidente agregam-se à sua volta em posições de igualdade e mútuo respeito.

No entanto, o terço do enquadramento ocupado pelo presidente é preponderante da sua influência para o argumento: nenhuma decisão pode ser feita sem o seu consentimento, e é claro que é a sua opinião a que mais pesa em qualquer discussão. Apesar da concordância das personagens a nível inter-pessoal, nota-se um receio por parte dele.

O conflito central da cena prende-se neste sentimento de apreensão e insegurança que Frank e Linda têm que eliminar. Segue-se uma discussão entre os três políticos até que Frank revela algo importante, e o presidente muda de lugar.

161617Ao afastar-se da câmara e se sentar com os seus confidants, a sua indecisão é apagada assim como a sua autoridade no enquadramento: junto a Linda ambos ocupam um terço, enquanto Frank e o vazio os outros dois, pois o seu peso para o argumento não repousa nas pessoas que se encontram naquela sala, mas sim nas que lá faltam, de quem a cadeira vazia é uma óbvia representante.

A verdade é que podia escolher um sem número de situações só desta primeira temporada em que cenas semelhantes acontecem, e até com um maior nível de detalhe a nível de performance que não achei importante para esta análise particular. Talvez outro dia as explore.

House of Cards pode falhar em termos de lógica narrativa ou por exagerar na suspension of disbelief necessária para aceitarmos certos comportamentos das personagens, mas é fascinante na atenção que dá às manobragens tortuosas que estas tomam para levar a cabo as suas intenções. Todos os episódios da série são autênticas masterclasses em como compor uma cena a nível de movimento e posição cénica e, por isso, a recomendo vivamente.

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