5 Westerns Modernos

O novo milénio trouxe uma nova era de filmes de género ultra-expansivos: com novas particularidades e sensibilidades emprestadas da efusão criativa dos anos 90. No entanto, houve um género cujo alento esmoreceu no novo paradigma cinemático: o western. Unforgiven, do mestre Clint Eastwood, veio em 1992, criando uma sombra que se estendeu durante mais de uma década. Mesmo as audiências parecem ter-se cansado da dicotomia white hat/black hat quando mostrada pelo prisma envelhecido das guerras fronteiriças e dramas de período.

Apesar do revisionismo do estilo western já existir desde os spaghetti de Sergio Leone e mesmo outros mais complicados de categorizar como Dead Man de Jim Jarmusch e El Topo do incomparável Alejandro Jodorowsky, a verdade é que a sua acessibilidade a audiências mais generalizadas era extremamente reduzida. Por outro lado, foram realizadores como Robert Altman e Robert Downey Sr. a coreografar décadas antes os aspectos mais modernos que encontramos em westerns recentes.

Não considero um critério propriamente essencial o número de bilhetes que certo filme vendeu ou a resposta crítica que receberam aquando da sua estreia; prefiro analisá-los e recomendá-los pelo impacto que tiveram no panorama cinemático em termos de influência e preponderância artística, assim como a óbvia preferência pessoal.

1. Deadwood – David Milch (2004-06)

010 Primeiro: isto é uma série da HBO com três temporadas, não um filme. Sei que é um investimento de tempo considerável, mas é dos que mais valem a pena devido ao elenco de luxo, cinematografia de retirar o fôlego e dos diálogos mais intensos e vívidos que passaram pela televisão americana. Deadwood foi criada por David Milch, um guionista com a particularidade de tornar qualquer conversa repleta de profanação eloquente e de transformar o mais reles vitupério no mais sonante verso de poesia.

É, sinceramente, o que eleva a série de ‘excelente’ para ‘obra-prima’. No entanto, palavras proferidas por espantalhos não são nada, pelo que é o cast a torná-los realmente distintos. Ian McShane faz o papel magnífico do degenerado Al Swearengen, dono de um bar/bordel e líder em tudo menos nome da vila de Deadwood. Swearengen é uma personagem fascinante: um típico vilão que é progressivamente tornado em anti-herói pela sua complexidade moral. Mata e esfola para manter o seu lugar proeminente, mas ao mesmo tempo luta para que Seth Bullock (Timothy Olyphant no seu melhor papel), um xerife de chapéu metaforicamente branco, seja respeitado no seu cargo e o cumpra em condições.

De modo geral, é uma série que lida com a criação da civilização, o estabelecimento secular da cidade americana e como ela vem do caos e se organiza através dele. Explora o âmago do ser humano e os extremos a que este chega para cumprir os seus propósitos mais pessoais, ao mesmo tempo que mostra a sua compaixão através dos actos altruísticos de uma população corrompida pela vida.

2. Django Unchained – Quentin Tarantino (2012)

04 No início da nova década tinham-se popularizado os western realistas, sem as convenções do romanticismo mais clássico e enraizados no mundo moderno e nas suas sensibilidades e temáticas. Tarantino, um enfant terrible cujo amor pelo género provavelmente ultrapassa o de qualquer realizador recente, já havia brincado com ele em Kill Bill e Inglorious Basterds, mas foi a sua variação altamente estilizada de 2012 que realmente permitiu ao influente realizador esticar os seus músculos mais selvagens.

Por esta altura todos já o viram mas não deixa de ser um filme fácil e (quase) obrigatório de mencionar, pelos floreados estilísticos assim como o soberbo diálogo, sem esquecer das performances excelentes em tom de Christoph Waltz, Samuel Jackson e Leonardo DiCaprio. Continuo a achar que, mais que em qualquer outro momento da sua filmografia, este foi roubado de um oscar para ator secundário. Calvin J. Candie é um vilão maior que o mundo, com um ego e uma perversidade que excedem os limites impostos por uma certa normalidade hollywoodesca de que Tarantino não escapa, e DiCaprio aproveita todo o mais ínfimo segundo em que está em cena para lembrar a audiência disso.

Django Unchained não deixa de ser um exercício em estilo por parte do maior estilista da violência contemporâneo, mas mesmo assim é uma peça cinemática incomparável, um pilar sangrento de ação, aventura e humor, numa época já distante e reinventada para uma cultura com um certo défice de atenção.

3. Meek’s Cutoff – Kelly Reichardt (2010)

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Falo do défice de atenção da sociedade moderna em relação a Django Unchained, mas não menciono o escopo épico de aproximadamente três horas que o filme tem: uma longevidade praticamente intragável não fosse a aventura tão esquizofrénica e distinta a camuflar os 165 minutos de fita a correr (ou de bateria do portátil).

No outro lado do espectro temos Meek’s Cutoff, lento, pesado, contemplativo e difícil na sua relativamente curta hora e quarenta minutos de duração. Em 1845, um bando de colonos à procura de uma cidade onde fazer casa perde-se no deserto do Oregon e passa semanas à procura de água e abrigo. Os dias são longos, quentes e áridos; pontuados por diálogos esparsos e uma ação praticamente inexistente que carrega um clímax curto mas esplêndido.

O que mais me intriga neste filme da Kelly Reichardt, conhecida pelos seus filmes de sensibilidade indie, fastidiosos e tentativamente poéticos, é a perspetiva assumidamente feminina. Os homens discutem ao longe: não os ouvimos, ou mal os ouvimos pois a câmara acompanha a vida de Emily Tetherow (Michelle Williams) e as restantes mulheres dos colonos na dura viagem pelo deserto.

A escolha é, como dita a história, retirada das suas mãos pelos maridos e amantes, que erram de forma recalcitrante durante todo o percurso: não chegam à cidade, não arranjam água, e só se submetem a situações perigosas. O olhar feminino é uma lufada de ar fresco num género repleto de machismo e uma certa misoginia tradicional.

Meek’s Cutoff é sem duvida art house e metódico na sua lentidão, mas para quem gosta de investir neste tipo de filmes, é um altamente recompensador.

4. No Country for Old Men – Coen Brothers (2007)

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Depois do sucesso inesperado de Fargo, os prolíficos irmãos Coen afastaram-se durante uns tempos da corrente mais violenta e misantrópica que os seus argumentos às vezes levam, preterindo comédias como The Big LebowskiO Brother, Where Art Thou? que, embora igualmente satisfatórias no seu género, não alcançaram os altos temáticos que experiências como Blood Simple e o já referido filme de 1996 sucederam em alcançar.

No Country for Old Men veio redefinir o duo de realização americano, orquestrando um jogo brutal de rato e gato entre duas das personagens mais cativantes a passar pelo cinema. Josh Brolin protagoniza Llewelyn Moss, um humilde ferreiro cansado do quotidiano da vida. A sua contraparte do lado menos ambíguo da moeda é Anton Chigurh (Javier Bardem, com o melhor penteado da sua carreira), um vilão de filmes slasher que se perdeu neste deserto western armado de uma arma de pressão para matar gado.

O filme explora temas como a consciência humana, a sua moralidade, encontros de circunstância, fé e destino. É uma autêntica esponja de influências, misturando terror com policial e filme noir. Na verdade, a umbrella de western aplica-se pelo ambiente em que se localiza, mas é simultaneamente uma reinvenção do género, demonstrando o declínio social, moral e monetário da sociedade ocidental que originou esta corrente fílmica.

5. There Will Be Blood – Paul Thomas Anderson (2007)

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Sem dúvida o meu favorito desta lista, a obra prima de Paul Thomas Anderson é um imaculado exemplo da despersonalização americana do início do milénio. Para o efeito, remete ao início do século XX e à procura de óleo e da fortuna dos actuais magnatas americanos, idealizados na figura imponente de Daniel Plainview. É uma história particular de Thomas Anderson: rise and fall, a ascensão e a queda de um estrato da sociedade ocidental à laia da classe alta suburbana de Magnolia e os industrialistas audiovisuais de Boogie Nights, desta feita num tom mordaz e pessimista.

No entanto, o que surpreende em There Will Be Blood não é o classicismo narrativo ou a previsibilidade do argumento, mas sim a construção das personagens e o seu simbolismo incontornável. Não vou entrar em digressões morais que já foram feitas antes de mim e por melhores palavras, mas acho brilhante a forma como Thomas Anderson vai buscar ao passado os temas e situações perfeitas para ilustrar situações da era corrente. Assumidamente, não é uma prática incomum em qualquer meio artístico, mas dificilmente alguém o faz tão bem por estas bandas como o prodígio americano.

Com uma cinematografia ao mesmo tempo aterrorizante e deslumbrante, a melhor trilha sonora que o multifacetado John Greenwood alguma vez compôs e irá compor, e das melhores performances de Daniel Day-Lewis, There Will Be Blood é um western moderno sublime, dono de uma corrente dramática contemporânea que acompanha todo o filme.

(1) A lista está por ordem alfabética 😉

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