Game of Thrones e o Jogo de Xadrez

SPOILERS para o episódio mais recente de Game of Thrones.

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Acontece sempre alguma coisa épica num episódio de Game of Thrones. Seja a revelação da verdadeira aparência de Melisandre, a ressurreição de Jon Snow, Dany a queimar um bando de Khals ou, como em “The Door”, uma morte de uma personagem amada pelos fãs.

Apesar disso, todos estes momentos chegam no final do episódio em questão, à laia de cliffhangers dispostos a chocarem tanto que fazem a audiência esquecer o que aconteceu na hora anterior. De semana a semana discutem-se os últimos cinco minutos de um dado episódio de Game of Thrones, como se a série fosse somente composta por esses momentos finais, e tudo o resto passa despercebido durante meses a fio.

Por exemplo: andamos há mais de cinco episódios a aturar os “testes” (quase já nem lhe podemos chamar isso) de Arya na casa do Deus de Muitas Faces, mas será que alguém está entusiasmado ou sequer quer saber onde esse plot vai dar? O tempo passado com Arya vem sempre nos primeiros dez ou vinte minutos dos episódios (*), escondendo a sua óbvia repetição ao serem enfiados entre peças infinitamente mais interessantes do enredo expansivo da série da HBO.

(*) Estas tentativas de ludibriar a audiência já vêm desde a quarta temporada, que ajustou o foco de Game of Thrones para momentos chocantes em detrimento do desenvolvimento compassado da história e das relações das suas personagens (ver:”Rains of Castamere”, um pináculo deste tipo de construção narrativa).

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Porém, apesar de continuar a aderir aos cliffhangers chocantes de semana a semana, esta temporada também se mostra diferente das duas anteriores. Ao contrário destas, a sexta temporada move-se a um passo glacial de episódio para episódio, reunindo personagens e pontos narrativos de forma densa mas pensada, como um bem equilibrado jogo de xadrez.

Caso em questão: a coroação dos Greyjoy. Theon, Yara e a sua família de piratas sempre foram relegados para segundo plano (mesmo com Theon presente em quase todos os episódios) de forma desajeitada; o ano passado chegou a aborrecer com a sua inaptidão em desenvolver a personagem de Theon. No entanto, com pouco mais de meia hora de tempo de antena, a sexta temporada aprofundou os irmãos Greyjoy de uma maneira que 50 episódios inteiros falharam em realizar. Tal deve-se à sua reunião como homem quebrado e mulher determinada em (re)conquistar o seu povo, mas a introdução de Euron Greyjoy como uma variável excêntrica e inconstante torna central a sua posição que muitas vezes se parecia situar no limiar da narrativa da série, sem grande peso nos acontecimentos nucleares a Game of Thrones.

As aventuras de Dany em Essos são outro exemplo do desenrolar mais equilibrado do plot este ano. Enquanto que na quinta temporada o seu tempo em Meereen foi composto de rabos em tronos e CGI barato, de situações desprovidas de uma agência verdadeira no que toca às ações da Mother of Dragons, Breaker of Chains e etc., etc., estes últimos episódios devolveram a importância narrativa à última Targaryen. Até a sua nudez é utilizada como um ponto temático (ao contrário do que era comum nas temporadas passadas): Dany pode estar nua, mas essa nudez não a sexualiza; torna-a aterrorizante. Vestida como veio ao mundo, Daenerys parece mais um semideus do que um objeto sexual.

Não é por acaso que tanto as peripécias dos Greyjoy como os momentos de pura badassery da Rainha de Meereen se ressaltam como as partes mais bem delineadas desta temporada: os dois mundos parecem destinados a colidir este ano, de uma maneira que poucos teriam previsto à meras semanas atrás. Dany precisa de uma frota de barcos, os irmãos Greyjoy acabaram de fugir com uma. Coincidência?

Durante algum tempo (ahem, quinta temporada), Game of Thrones parecia demasiado preocupado em expandir o seu mundo e em divergir as suas personagens, atrasando as resoluções climáticas de forma pouco orgância. Mas essa hora acabou, os momentos de convergência estão a chegar. Só nos resta estar atentos.

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