Fright Friday #1

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Sou a pessoa mais assustadiça que conheço.

Detesto estar de costas para portas porque sei que se alguém entrar ou falar sem eu saber, vou soltar um berro; mas bem diferente é adorar ver filmes de terror. Aliás, é precisamente essa ligeira diferença entre susto inesperado e verdadeiro terror que distingue os péssimos dos grandes filmes. É um género onde reina a ironia, já que tenta assustar-nos com a banalização daquilo que mais nos assusta, e sim, é um lugar saturado, cheio de clichés e manias, repleto de histórias fracas e sem conteúdo, um género aborrecido e sem teor artístico. Mas é precisamente para isso que aqui estou, nada temam.

Quisemos aproveitar a coincidência da sexta-feira treze deste mês para começar com uma série de artigos diferente do habitual.  A partir de agora tentarei determinar, uma vez por mês, aquele que é o terror que qualquer pessoa deve ver, não necessariamente apenas pelo seu cariz marcante ou importante na história do cinema, mas sim porque é, de facto, muito muito fixe. Se nos fôssemos restringir às produções marcantes e importantes, teríamos na maioria longos artigos sobre Nosferatu (1922), Psycho (1960) ou Exorcista (1973) e ninguém ficava a saber nada de novo. Nós não queremos que isso aconteça.

Assim, sem querer tomar partido de determinado sub-género específico, prometo trazer-vos um alfabeto completo de filmes para verem durante os próximos fins-de-semana.

# – 3 (2001) & 3 EXTREMES (2004)

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Juro que a minha enorme devoção por cinema asiático nada tem que ver com a escolha desta primeira entrada, é simplesmente porque este par de filmes precisa, imperativamente, de ser visto em conjunto pela sua temática e pela sua grandiosidade, e merece toda a vossa atenção. O conceito é pegar nos realizadores mais importantes da Tailândia, Coreia, Hong-Kong, e Japão, e dar aos espectadores a experiência total e completa do terror asiático.

Já mencionei num dos meus artigos anteriores a influência que o folclore e a tradição supersticiosa do Japão têm no seu cinema, mas não só o Japão tem o seu cunho no terror oriental; é sem dúvida o mais reconhecido devido aos diversos remakes norte-americanos a partir dos 2000, mas são antologias como esta 3 e a sua sequela 3… Extremes, que provam que o terror asiático vai não só muito mais para além do Japão, como é ainda bastante forte fora dele.

Para quem gosta de terror destas bandas e ainda não viu estes filmes, aconselho a fazerem-no já este fim-de-semana; se não conhecem terror asiático de todo e gostavam de conhecer, então não têm melhor bilhete de entrada que este para as suas histórias complexas e visuais estranhos, para tensões de cortar à faca e para bandas sonoras arrebatadoras.

A – AMERICAN PSYCHO (2000)

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Algures nuns anos ’80 atribulados ou numa distopia futurista, um empresário corporativo chamado Patrick Bateman pavoneia-se pelo seu estilo de vida lascivo e espampanante. O seu génio atribulado preocupa-se mais com a competitividade entre cartões de visita do que propriamente em trabalhar, e a forma como descarrega o stress de não ser o melhor de todos é, de facto, assustadora. A banda sonora foleira dos anos 80 preenche todas as cenas de mais violência, o que faz um contraste quase cómico nas cenas de maior tensão, e assim se cria uma obra cinematográfica de grande valor.

Muito se discute sobre o verdadeiro teor deste filme. Muitos dizem ser um thriller, outros dizem ser uma comédia. Pessoalmente os meus critérios para saber se um filme é terror ou não, é simplesmente perguntar-me se é assustador, e American Psycho é, digam o que disserem, assustador. O ser humano é assustador. O capricho é assustador.

Portanto, se um Christian Bale assustadoramente caprichoso, vazio e semi-nu não for suficiente para quererem ver este filme, então por que não juntar um Jared Leto irritante e uma boa dose de sangue?

B – BEGOTTEN (1990)

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O terror é uma etiqueta muito mais abrangente do que qualquer outro género cinematográfico, em grande parte devido à falta de etiquetas para determinadas coisas. Neste caso, não podemos considerar este um filme assustador per se, mas podemos considerá-lo eternamente perturbador e soberbo. Não é para todos, é verdade, mas se estão à procura de um filme para vos deixar com as tripas à entrada da boca, então este é o filme para vocês.

Num filme inteiramente a preto e branco e em absoluto silêncio para além dos grilos e de alguns sons de natureza, Begotten começa com uma figura sentada numa cadeira, em que numa espécie de ritual suicida se mutila e acaba por morrer; à sua volta, uma figura feminina desperta e fecunda-se a si própria com os restos líquidos mortais da criatura. Depois disso, é um festival de imagens que impressionam e hipnotizam, que juntamente com a tensão de algumas cenas completam uma experiência sem igual, especialmente se o assistirmos numa grande tela.

Como disse, é capaz de não ser para todos, mas se forem daquelas pessoas que por muito impressionadas que estejam não conseguem virar a cara e parar de ver, não têm de quê.

C – COISA RUIM (2006)

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Existe um certo desconforto em ver filmes de terror com um ritmo tão arrastado como este, ainda para mais se for falado na nossa própria língua e conseguirmos sentir alguma espécie de relação cultural com o que nos é contado. Só consigo imaginar que será algo deste género que se costuma sentir naqueles países onde a cultura se revê no seu cinema, especialmente o de terror.

O argumento de Coisa Ruim foi escrito por Rodrigo Guedes de Carvalho (sim, o jornalista), e a realização palpitante do seu irmão Tiago Guedes e de Frederico Serra, cria um conto de horror onde a atmosfera tem bem mais importância do que o susto, e onde o batimento cardíaco desconfortante tem mais predominância do que uma banda sonora alta e incomodativa. O seu ritmo prolongado distancia-se automaticamente do típico filme de terror como não se vê muitas vezes, mesmo no cinema estrangeiro, e lá fora fala-se deste como um filme de referência.

O seu sucesso comercial em Portugal, país até então habituado apenas a filmes intelectuais, fez com que se previsse um novo rumo para a até então fraca produção comercial de cinema de terror em Portugal, mas infelizmente nada disso aconteceu. Resta-nos esta memória, e talvez a d’ O Barão (2011), e as edições do MOTELx.

Até para o mês que vem.

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