Crítica: Todos Querem o Mesmo… mesmo

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Todos Querem o Mesmo começa mal: Jake (Blake Jenner), o nosso protagonista, chega todo armanço e cheio de pinta ao seu novo dormitório de uma universidade nos anos ’80, que partilha com duas mãos cheias de outros gajos – gajos é o termo apropriado – todos armanços e cheios de pinta.

Estes primeiros minutos tresandam a mais testosterona concentrada do que qualquer um dos filmes dos Mercenários, repletos de piadas machistas e gozos à sensibilidade masculina, pois todos sabemos que homem que é homem não tem sentimentos. Jake e os seus compinchas vão visitar as novas ninas a chegar ao campus universitário, e conseguimos sentir as tesões mal contidas daqueles jovens, a olhar para todos os rabiosques e pernas ao léu do seu contraparte feminino.

O pior é que nenhuma das personagens parece redentora de início: todos agem da mesma forma hyper-masculina que é fácil de reprovar hoje em dia (e com razão); se fossem portugueses certamente estariam a puxar o ranho e a escarrar para o chão a torto e a direito. A música é boa, o ritmo é enérgico, mas não parece haver nada apreciar no filme.

Então, algo mágico acontece.

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De repente, aquelas personagens ficcionais do filme tornam-se humanas. De repente, o ambiente hyper-masculino apresenta-se como apenas uma faceta daquele mundo, e o canto dos nossos lábios começa a expandir-se e a expandir-se até se abrir num sorriso rasgado de uma ponta à outra.

Não há como explicar por palavras esta metamorfose progressiva de Todos Querem o Mesmo; há que experimentá-la em primeira pessoa. É o ambiente musical, é o espírito de camaradagem que se cria entre as personagens e a audiência, são as interpretações daqueles atores praticamente desconhecidos, é banalidade do que acontece no ecrã; é tudo. O que à primeira vista podia ser um throwback desconsiderado à era American Pie da misoginia dissimulada, torna-se num estudo de personagens sem igual, numa cápsula do tempo que ultrapassa a mera masturbação nostálgica, capaz de tocar e emocionar mesmo aqueles que não viveram os anos ’80 no Texas americano.

A razão principal desta transformação está na maneira como Richard Linklater, o realizador e argumentista, trata as suas personagens.

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O grupo principal de jovens desportistas pode parecer só mais um bando de rapazes com tesão (afinal de contas, são jovens), mas à medida que a narrativa se desenrola, as suas personalidades vão-se formando, ao ponto de decorarmos o nome de mais de 10 personagens no espaço da duração do filme. 10 personagens! Se passados 50 episódios ainda não sabem quem é quem em Game of Thrones, pensem só no quão bem sucedido Todos Querem o Mesmo é em tornar as suas personagens reais.

Mas Linklater não se fica por aí: enquanto um American Pie relegaria as suas personagens femininas a nada mais que pão sexual a ser ingerido, o realizador de Todos Querem o Mesmo define-as tão bem quanto os seus protagonistas masculinos. Não há nenhuma sexualização desmedida do corpo feminino, aliás, há, mas em igual medida com o corpo masculino (há mais rabos de gajo neste filme do que outra coisa).

A temática principal do filme é a igualdade; não a igualdade de género, porque essa Linklater assume como ponto de partida, mas sim a igualdade entre tudo e todos no geral. Em vez de separar os jocks dos nerds, ou de fazer pouco dos freaks e dos stoners, Linklater propõe que apesar de diferentes, todos podem partilhar dos mesmos gostos e vontades, do mesmo grupo de amigos até, quem sabe. Jake e os seus amigos desportistas são autênticos camaleões: festejam com álcool no seu dormitório, vão a concertos punk, festas disco e country só porque sim, e divertem-se com o pessoal de artes em peças de teatro e afins. Ninguém julga ninguém pelas suas diferenças, em vez disso, celebram-nas, e unem-se pelo que os distingue. É sublime, e uma perspetiva bem-vinda neste mundo cada vez mais cético e unilateral.

Linklater não filma filmes, ele filma momentos. E Todos Querem o Mesmo é o melhor momento que vocês vão poder passar no cinema este ano.

4 stars

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