Crítica: 10 Cloverfield Lane, o bebé chorão

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Se 10 Cloverfield Lane não tivesse “Cloverfield” no nome, era um filme muito melhor.

Durante 90% do tempo, somos imersos num estado de paranóia constante, atirados sem pena para aquele bunker construído por Howard (John Goodman), tal como Michelle (Mary Elizabeth Winstead), a nossa protagonista. Howard diz-lhe – e diz-nos, audiência – que a salvou, e que o mundo lá fora foi destruído por um ataque químico que tornou o ar irrespirável. Howard acredita estar a dizer a verdade, apesar de toda aquela situação parecer algo macabra e inexplicável. Deve Michelle (e, por ora, a audiência) acreditar nele?

Os primeiros quarenta minutos de 10 Cloverfield Lane estabelecem perfeitamente esta questão, ao mostrar Michelle como uma personagem cética e ardilosa pronta para lutar contra tudo e todos só para sair daquele lugar. Faz de uma muleta uma arma, seduz e mente para apanhar umas chaves… Michelle ladra e morde em igual medida, tal como nós faríamos naquela situação.

E é esse o ponto-chave de 10 Cloverfield Lane: a narrativa é de tal modo contida e cheia de tensão, com objetivos e riscos claros para todas as personagens, que quase que obriga o espetador a inserir-se naquele bunker com aquelas pessoas e a viver o filme. É uma experiência que poucos na sétima arte conseguem replicar, e 10 Cloverfield Lane, pelo menos durante a maior parte da sua duração, fá-lo de forma magnífica.

Então onde é que o filme falhou?

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Falhou em ter “Cloverfield” no raio do nome.

Ao tornar-se numa meia-sequela-espiritual-só-que-não, 10 Cloverfield Lane oferece de imediato as respostas ao que podia ser um mistério potente não só para as personagens, mas também para a audiência. Será que foi a Rússia a lançar um ataque nuclear? Ou a Coreia do Norte? Não, foram aliens, porque “Cloverfield”. Howard está a dizer a verdade, ou a mentir? Claro que está a dizer a verdade seu idiota, porque “Cloverfield”. Então, mas ele é um assassino, ou não? Pfft, isso interessa sequer? “Cloverfield”!!!

É certo que este é um problema com que as audiências daqui a umas dezenas de anos não se vão ter que preocupar. Mas no contexto atual em que o filme foi lançado, diretamente associado ao original de 2008 (o marketing aproveitou-se dessa ligação miserável para catapultar 10 Cloverfield Lane ao estrelato imediato), a reação a muitas das questões colocadas ao longo do filme são progressivamente mais frouxas por sabermos onde o enredo vai parar. Talvez alguém retirado deste contexto, a apanhar o filme na TV ou em streaming (sei lá como vai ser o futuro), irá achar 10 Cloverfield Lane genial e “twisty”, a aplaudir do início ao fim.

Mas o seu contexto importa, até porque imagino que muita gente partilhou do meu desapontamento aquando os 15 minutos finais. Não os vou estragar, mas pertencem a uma fórmula blockbuster que não corresponde à tensão refreada do resto do filme, criando um choque entre géneros cinemáticos tudo menos agradável. E aquele fim… parece um bebé chorão a berrar por uma sequela.

10 Cloverfield Lane é um pequeno flick de ficção-científica que não devia ser. Mas é extremamente cativante durante grande parte da sua duração, com duas interpretações fantásticas por Winstead e Goodman, e algumas sequências de ação bem realizadas. É pena é chamar-se “Cloverfield”.

2 stars

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