Game of Thrones e a Mulher Vermelha

SPOILERS para o episódio mais recente de Game of Thrones.

679807774

Se Game of Thrones sempre foi uma série definida pelo confronto dos seus protagonistas com as instituições em que se inserem (*), esta é a temporada em que essas mesmas instituições começam a cair.

E talvez o aspeto mais importante, evidenciado por estes primeiros dois episódios da sexta temporada, é o quão centrais são as personagens femininas a essa revolução institucional. Em Dorne, são as Sand Snakes a orquestrar o brutal golpe de estado contra o patriarcado sulista; em Pyke, é Yara Greyjoy quem sucede o seu pai Balon ao trono das Ilhas de Ferro – pelo menos até ao seu misterioso tio aparecer do vazio e clamar por uma Kingsmoot.

(*) Jon Snow quer eliminar a xenofobia dos seus pares pelos Wildlings; Dany rebela-se contra o esclavagismo de Essos; Cersei luta por afirmar o seu poder feminino numa corte de homens… Até vilões como os Bolton e os Frey existem e agem em função da instituição que servem.

5652344

A visão destas mulheres é refrescante, mais progressiva que o governo resignado que as relegava para segundo plano. Yara quer a paz, sem rejeitar o que é seu por direito, mas Balon quer a guerra, mais e mais guerra para saciar o seu orgulho quebrado. Já em Dorne a situação é outra: Doran Martell manteve a paz a tudo o custo, em detrimento da sua população que vive desmoralizada e sem pátria. As Sand Snakes só querem reaver o espírito de Dorne, e obter a vingança contra um reinado que as oprimiu por pura arrogância (isto é, os Lannister).

Porém, a figura central destes dois primeiros episódios foi Melisandre.

A Mulher de Vermelho teve a sua primeira crise de fé quando o seu herói das chamas, o proclamado Azor Ahai, ahem, Stannis Baratheon, morreu desonrado numa peleja amadora. Sem o seu Deus incarnado, a bruxa renunciou R’hllor por momentos, revelando a sua verdadeira forma à audiência num dos melhores e mais contidos cliffhangers que a série já produziu. A visão daquela mulher deslumbrante e sedutora, despida numa pele velha e engelhada fez-nos sentir tão enganados como Melisandre pelo seu próprio Deus. Um golpe de estômago brutal, que teve a sua recompensa narrativa no episódio que se seguiu.

34252313456

Porque vamos ser sinceros: todos sabíamos que Jon Snow ia voltar.

A pergunta não era como, porque a questão da ressurreição já existe na série desde que Beric Dondarrion renasceu à nossa frente na terceira temporada (cadê Beric) – e também não é por acaso a Montanha andar por aí a esmagar bêbados contra paredes muito depois de ter esticado o pernil. Não, a questão que se colocava era quando?, e até quando os criadores de Game of Thrones podiam adiar o inevitável, sem enfurecer uma audiência desnorteada com a morte de um protagonista com muito por fazer. Portanto, Jon Snow renascido foi só o óbvio, a resolução que todos esperávamos a um beco narrativo que precisava de ser resolvido o quanto antes, e que só vai ser definido em retrospetiva quando percebermos aquilo que Snow é, agora que morreu e renasceu; certamente não será a mesma pessoa.

O verdadeiro twist está na forma como eles nos apresentaram essa inevitabilidade: ninguém esperava que de repente a viagem emocional de Melisandre se tornasse mais importante que o regresso de Jon Snow, mas foi isso que aconteceu. A sua crise de consciência, o discurso motivador (e genuíno) de Davos, o ritual sensual da última cena; todos esses momentos se centraram única e exclusivamente na perspetiva da Mulher Vermelha. A antecipação pelo derradeiro momento foi espremida até ao osso por esta visão enviesada de uma mulher sem fé, que com o poder do Fogo derrubou o Gelo. Vida e Morte numa cena lindíssima que cumpriu o que tinha a cumprir.

Pela primeira vez na muralha (que desde o início da série sempre teve o seu quociente de misoginia e hyper-machismo), foi uma mulher a alterar o rumo da história. Nem Ygritte nem Gilly tiveram este impacto nas temporadas passadas, e aquilo que a ressurreição de Jon representa para uma instituição aparentemente imutável – não podemos esquecer que todos os homens da Patrulha da Noite servem nela até morrerem -, é agora ainda mais importante para a arquitetura narrativa da série, pelo simples facto de ter sido operada por uma mulher.

Out with the old, in with the new, dizem os camones. A revolução em Game of Thrones está a chegar e no meio dela estão as mulheres. Viva Melisandre.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s