Crítica: Capitão América – Guerra Civil

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Capitão América: Guerra Civil é o suposto pináculo contemporâneo dos filmes de superheróis.

Como muitos dos melhores filmes do género (ver: O Cavaleiro das Trevas (2008)), Guerra Civil não se coíbe de dissecar a complexidade moral dos seus protagonistas – o dito cujo Capitão América, aka Steve Rogers, e o bilionário playboy Tony Stark. Esta segunda entrada dos Irmãos Russo no universo da Marvel captura na perfeição duas ideologias distintas, ambas tão certas quanto erradas; duas ideologias que se debatem acerca da questão central que tem definido este género cinemático nos últimos anos: quem supervisiona os superheróis? Who watches the Watchmen?

Os momentos em que as personagens sobredotadas de Guerra Civil param para refletir acerca das suas posições, das suas vontades e motivações, são únicos no panorama cinemático atual. A responsabilidade governamental e militar (ou falta dela) é um tópico que abre muitas feridas hoje em dia, e transpô-lo para um contexto paranormal de superheróis mutantes com capas e armas futuristas pode parecer ridículo, mas acaba por dar azo a uma discussão que o público geral ainda não tem na ponta da língua. É arriscado, e os Russo não deixam nada para dizer em Guerra Civil, pelo menos no que diz respeito às personagens ficcionais do seu filme.

Esta temática é séria e abordada de forma respeitosa pelos Russo. Então porque é que Guerra Civil me deixou tão vazio?

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Enquanto, por exemplo, O Cavaleiro das Trevas explora na totalidade da sua duração a moralidade cinzenta que tanto define os seus protagonistas e antagonistas, Guerra Civil acaba por não oferecer uma conclusão genuína ao seu conflito central.

A verdade é que o filme perde-se no rico mundo de superheróis que a Marvel tem construído ao longo dos últimos oito anos, preferindo a atitude crowdpleasing (hey!!! é o Homem-Aranha!!) que tornou o MCU num sucesso à escala global, em detrimento do que podia ser um filme singular e contido como, por exemplo, O Soldado do Inverno (2014) foi. Isto não é para dizer que a dita vontade de agradar as audiências é errada. Afinal de contas, os melhores momentos de Guerra Civil vêm das interações entre as várias personagens, sejam elas Wanda e Vision a falar de receitas de culinária, ou o Homem-Aranha a espancar o Falcon com umas graçolas aqui e ali. Hoje em dia, o MCU é uma gigante caixinha de areia onde todos podem brincar, para o bem e para o mal.

Para o bem, porque o elenco de superheróis reunidos em Guerra Civil é o maior e o melhor de sempre na história do cinema. Esqueçam lá o Andrew Garfield e o Spider-emo do Tobey Maguire; esta versão mais jovem, protagonizada por Tom Holland, arrasa no pouco tempo que está no ecrã. Nota-se que algum do protagonismo destinado a Black Panther lhe foi roubado pela introdução à última da hora do aranhiço, mas Chadwick Boseman preenche todas as cenas em que entra com um carisma descomunal, imiscuindo-se naquele mundo fantástico como se sempre lá estivesse estado. Paul Bettany, Elizabeth Olsen, Paul Rudd, Anthony Mackie; pá, todos eles têm no mínimo dois momentos em que respiram vida às suas personagens de uma forma que, por exemplo, Henry Cavill é incapaz de fazer com o Super-Homem (e já lá vão dois filmes).

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De facto, a titular Guerra Civil também dá origem a um confronto de proporções épicas entre os nossos heróis. A sequência de ação dura para aí uns 15 minutos e é impossível ficar desiludido com eles: cada personagem se move de maneira diferente, age de modo diferente, e interage de forma singular com as restantes. Não há gordura ou repetição desnecessária; Guerra Civil reúne 12 superheróis distintos e deixa que as suas personalidades díspares floresçam no ecrã como nunca antes vimos. Joss Whedon fez muito com o primeiro filme dos Vingadores (2012), mas podia aprender com a dinâmica narrativa dos Russo.

Infelizmente, a coisa também dá para o torto. Nem todas as cenas de ação estão bem filmadas, montadas que estão quase de forma enjoativa no ritmo dos seus cortes, tornando imperceptíveis alguns momentos fulcrais para a compreensão visual do que se está a passar na tela. O CGI também é manhoso em alguns cantos (as explosões são horríveis, parecem de 2006), retirando realismo à estética característica dos Russo, que acaba também por sobrecarregar o ambiente de um filme já de si muito pesado tematicamente.

Porque a verdade é que, em termos visuais, Guerra Civil parece esquecer-se que existe num mundo sobrenatural onde aliens e mutantes verdes existem. A estética acinzentada funcionou perfeitamente em O Soldado do Inverno porque se entregava a 100% ao seu estilo throwback de filme de espionagem; aqui, em que o clímax se define pelo conflito colossal entre fações opostas de superheróis, só se torna aborrecido. Retira o prazer de algumas cenas que deviam vibrar com cores, que deviam refletir as personalidades coloridas daquelas personagens detentoras de poderes mágicos que só vemos nas páginas de banda-desenhada. Guerra Civil aborrece com o cinzento, quase com medo de pintar o ecrã com a saturação colorida que tanto impressionou em Guardiões da Galáxia (2014).

Guerra Civil vai certamente ser bem recebido pela crítica e pelas audiências gerais: é extremamente divertido, um regalo para quem tem seguido as aventuras destas personagens ao longo dos últimos 8 anos, e equilibra o entretenimento superheróico com algumas reflexões bem atuais acerca da responsabilidade governamental e militar em tempos de guerra. Se ainda estivéssemos em 2008 (ou 2012), Guerra Civil podia existir independentemente do universo cinemático em que opera, e definir-se como um filme completo do início ao fim.

Em 2016, é só mais uma sequela da Marvel, em que nada verdadeiramente começa, e em que nada verdadeiramente acaba.

2 stars

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