Crítica: Better Call Saul – Temporada 2

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Breaking Bad era uma série sobre um homem terrível que toda a gente considerava um santo. Já Better Call Saul é uma série sobre um homem que toda a gente pensa ser mau, mas que no fundo só quer ser bom.

Esta distinção é essencial para perceber o charme da spin-off Better Call Saul: enquanto na série original aprendemos a odiar o nosso protagonista, aqui lutamos para que Jimmy McGill não se torne no Saul Goodman que vimos a conhecer em Breaking Bad, nefasto e homicida (ou, pelo menos, facilitador de homicídios). Jimmy, mais que Walter White, é um verdadeiro homem de família. Ao passo que aquele dizia cometer crimes pela sua mulher e filhos, mas na verdade só o fazia para alimentar o seu ego, Jimmy não esconde o quão contornar a lei lhe dá prazer. A sua namorada sabe-o, o seu irmão sabe-o, ele sabe-o. E, no entanto, ao longo desta segunda temporada, os maiores crimes que Jimmy comete não são para seu proveito, mas sim para ajudar os seus entes queridos. As suas escolhas quebram-nos o coração por sabermos serem erradas mas virem de um lugar de genuína benevolência; em Better Call Saul, Jimmy comete atos puramente altruístas que Walter White nem sequer sonhava replicar.

Jimmy, por mais parecido com Saul Goodman que possa ser, é também uma pessoa completamente diferente, e Bob Odenkirk interpreta essas duas versões da mesma personagem com o mesmo empenho com que Bryan Cranston protagonizou o maior vilão dos últimos anos.

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Porém, não é só Odenkirk a brilhar em Better Call Saul. Jonathan Banks está mais velho (e, por ora, Mike Ehrmantraut também), mas é como se essa idade pesasse melhor a um Mike mais gasto e sem energia do que aquele que conhecemos em Breaking Bad – paradoxalmente mais jovem e intenso. Michael McKean encontra mais e mais camadas de perversidade em Chuck, o irmão mais velho de Jimmy, sem se tornar numa caricatura abominável como, por exemplo, Tuco Salamanca. Mas é Rhea Seehorn (que interpreta Kim Wexler, o par profissional e romântico de Jimmy) que rouba o show.

Na primeira temporada, Kim não era mais que uma personagem secundária que coloria o limiar da narrativa em função de Jimmy, mas que não existia independentemente dele. Agora, Kim é talvez a melhor personagem de todo o universo Breaking Bad, e não o menciono em termos qualitativos, mas sim morais: ela só quer singrar na sua carreira da forma mais correta possível, sem recorrer aos atalhos “profissionais” de Jimmy, nem ao jogo de corda repreensível de Chuck. Não é a sua relação com Jimmy que a define (apesar de ser uma parte irrevogável da sua personalidade), mas sim a sua determinação em alcançar tudo por si mesma, sem pisar ou cuspir em ninguém. Kim é uma mulher cheia de brio, uma personagem cheia de coração.

Dói-me saber que não aparece em Breaking Bad, e que portanto se avizinha algum desastre para a afastar de Jimmy. Até lá, vou rezar para que Better Call Saul se passe num universo paralelo em que Jimmy e Kim possam ter um final feliz. Deixem-me.

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Por mais rico que Better Call Saul seja relativamente ao seu estábulo de atores, é nos restantes departamentos que verdadeiramente se destaca das melhores séries contemporâneas. Game of Thrones pode ser brutal e chocante, ninguém bate Fargo no que toca à comédia negra, e o coração metafísico de The Leftovers continua sem rival, mas Better Call Saul é, de forma muito singela, melhor.

Desde a direção de fotografia (que nesta temporada brincou com os complexos movimentos de câmara que Orson Welles popularizou em A Sede do Mal (1958)), aos figurinos – foi bom ver de novo as gravatas coloridas de Saul -, até às intermináveis montagens, que rivalizam com qualquer filme de Hollywood, de tão boas. Cenas duram minutos a fio sem aborrecer a audiência, o que deixa as personagens respirarem e falarem umas com as outras como humanos autênticos, não como marionetas num programa de televisão. Há uma energia cinemática em Better Call Saul que não encontramos em nenhum outro lado, mesmo quando a narrativa em si parece também ir a lado nenhum.

Ao longo de 10 episódios, as personagens que conhecemos no início da temporada estão praticamente no mesmo lugar em termos narrativos, talvez um passo ou dois mais perto do seu derradeiro final. Não há grandes plot twists, nem nenhuma morte chocante; tudo se desenrola de uma maneira natural que permite à série delongar-se nos pormenores mais ricos de todas aquelas personagens. Esta atitude é praticamente inexistente no panorama televisivo de hoje em dia, que devora enredo atrás de enredo até chegar a reta final em primeiro lugar, como se de um sprint se tratasse. Better Call Saul não é um sprint, é uma maratona, e para isso é preciso paciência.

Mesmo assim, não dá para enxugar a noção que esta temporada esteve só a adiar o inevitável. Todos sabemos que Jimmy McGill vai transformar-se em Saul Goodman, e que Mike vira assassino a sangue frio para o Gus Fring, e todos queremos um pedaço dessa tarte narrativa. O passo de caracol nem sempre funciona em Better Call Saul, mas enquanto tudo o resto cativar desta forma exuberante, é impossível resmungar.

Custa é esperar mais um ano.

4 stars

2 responses to “Crítica: Better Call Saul – Temporada 2

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