Paul Verhoeven e a Ficção Científica

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Relembrando que andamos por ambientes holandeses de Paul Verhoeven, resolvi falar de dois filmes particulares do seu caminho por Hollywood e pelos anos 90: Desafio Total (1990) e Soldados do Universo (1997).

São quase filmes-irmãos, mas ao mesmo tempo completos desconhecidos e acho que isso é também representante daquilo que este realizador sempre nos habituou a esperar. Para uma melhor compreensão deste texto, aconselha-se que vejam estes filmes, porque falar sobre eles em meia-dúzia de linhas é humanamente impossível. Comecemos.

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É importante olhar para estes filmes, ambos um pouco tardios no percurso de Verhoeven por terras americanas, como marcos importantes da sua passagem por Hollywood. Os dois, com um intervalo de sete anos entre si, servem de exemplo para as diversas adaptações de método que certos realizadores acabam por sofrer face ao que deles é esperado (pelos estúdios ou pelo público no geral), quer essa adaptação seja para melhor ou para pior. É, na minha opinião, isso que resume o percurso deste autor.

Pode dizer-se que Desafio Total tem pouco de ficção científica, já que apenas os seus alicerces e o seu ambiente assim o ditam: no seu núcleo, não passa de uma espécie de ficção mental e para-mental; um filme-viagem, uma micro-epopeia à cabeça humana e à imaginação do protagonista, incluindo até do próprio espectador.

A viagem é bastante clara, mas os seus acontecimentos dependem da susceptibilidade de cada espectador à linguagem cinematográfica e aos limites que ela nos impõe. Marte é, como é óbvio, a vida, o sonho, a ambição, e o desejo. Notamos a preocupação com a ambiguidade e com o desespero, apesar de Schwarzenegger não ser o canvas ideal para tal, e sentimos honestidade e emoção naquilo que nos é mostrado.

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Pelo contrário, Soldados do Universo já é essencialmente aquilo que esperam dele, um filme de ficção científica que nos leva a viajar pelas curvas e contra-curvas do género e das suas próprias limitações mas, paradoxalmente, sem quaisquer limitações. Percebe-se o excesso de confiança no já adquirido sucesso dos filmes anteriores, e a ausência de filtro pode ser, para alguns, no mínimo problemática.

Soldados do Universo coloca muito mais em evidência a influência americana em Verhoeven, e é importante que percebamos que na maior parte das vezes sucesso não é sinónimo de conteúdo, visto que considero muito mais evidente esta influência neste filme do que em Instinto Fatal (1992), por exemplo.

Na sua totalidade, Soldados do Universo é, sem dúvida, um filme americano; mas Verhoeven dá a volta a esta “condição” com o seu bom trabalho com a violência, o subentendido, a crítica social, e ainda com as expectativas que o próprio público tem sobre o seu trabalho. Uma vez que o seu nome já se encontrava manchado com Showgirls (1995), sente-se uma certa preocupação da sua parte em fazer algo que fosse ainda mais para além disso.

Se estivermos em 1997 e olharmos de relance para 1990, podemos ver do outro lado um Desafio Total mais contido e comedido, um filme sem estar tão protegido pelo selo hollywoodesco, um filme que vem depois da glória de Robocop (1987) e que não podia, de todo, decepcionar o público. Mas ainda com esta limitação, Verhoeven consegue sempre levar-nos a um mundo diferente e absolutamente singular.

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