Crítica: O Rapaz e o Monstro, originalidade precisa-se

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O Rapaz e o Monstro podia ser o novo Viagem de Chihiro (2001), uma reflexão mágica e profunda sobre a transição de uma criança para a idade adulta, mas em vez disso limita-se à cópia barata, sem qualquer interesse em explorar a sua temática para além do que está à superfície.

O filme conta a história de Kyuta, um órfão de mãe que de repente se encontra num mundo fantástico repleto de animais antropomórficos. No meio da confusão, é adotado por um homem-urso, que quer fazer de Kyuta o seu aprendiz, de modo a provar-se como o Deus do seu mundo.

A premissa é colorida o suficiente para intrigar os mais céticos, e a verdade é que a animação realizada por Mamoru Hosoda (um misto de animação tradicional e magia CGI) é um regalo para os olhos, com todas as suas cores e movimentos enérgicos de câmara. Hosoda sabe compor um plano bonito, e tem uma queda para o estrambólico no que toca aos combates climáticos da sua narrativa que fica sempre na mente de quem os vê. Até o design das personagens é acima da média; nota-se que houve uma atenção preciosa ao detalhe de cada boneco que vemos no ecrã, como se todos eles pudessem ser os protagonistas do seu próprio filme. É um aparte que não ata nem desata os fios narrativos menos bem conseguidos de O Rapaz e o Monstro, mas é igualmente símbolo de uma dedicação que raramente encontramos até no cinema mais prestigioso de Hollywood.

De facto, o grande problema de O Rapaz e o Monstro não é nem a premissa narrativa, nem a animação em si. O grande problema do filme é o ritmo a que a história se desenrola, saltando entre o altamente dinâmico e o profundamente aborrecido numa questão de segundos. Algo que Hosoda sempre conseguiu realizar nos seus filmes anteriores (como Wolf Children (2012)) foi cativar a audiência com o sentimento envolvente dos seus protagonistas, como se estas personagens vivessem com as suas emoções mais recônditas à flor da pele. Elas eram tão distintas e bem delineadas que vibrávamos de imediato com elas; por mais nonsense que o enredo acabasse por ser, tínhamos sempre a âncora dos protagonistas para nos prender ao filme.

Em O Rapaz e o Monstro, tal não acontece. Perdemo-nos facilmente nos meandros da história por não entendermos o que é que aquelas personagens querem, o que é que elas temem, de onde elas vêm, para onde elas vão. É tudo uma incógnita que se desenrola a passo de caracol aqui e ali, para acelerar desenfreadamente quando menos esperamos.

Com mais um anito no caldeirão, O Rapaz e o Monstro tinha saído perfeito. Toda a gordura retalhada, os problemas de pacing resolvidos, um pouquinho mais de pimenta aqui e ali, e bam!, cinco estrelas. Como está, é só um emaranhado de ideias que tenta ser A Viagem de Chihiro para a nova geração, mas fica muito, muito aquém do épico visionário de Hayao Miyazaki.

2 stars

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