Abril – Total Verhoeven

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Todos aqueles com idade suficiente para se lembrarem de um mundo sem reality shows devem ter a vaga ideia do que eram as noites de passagem de ano, depois da meia-noite, quando supostamente tínhamos de ir para a cama enquanto ficavam a passar filmes “eróticos na televisão, como o Showgirls (1995). Lembro-me também daquela fase em que achava o Robocop (1987) incrivelmente fixe quando andava no 2º ano mas todos me achavam uma esquisita, porque já eram os anos 90 e eu era uma miúda. E lembro-me ainda, como se fosse ontem, de ver o Desafio Total (1990) com o intuito de gozar com o Schwarzenegger e acabar o filme com cara de parva, de tão bom. Lembro-me da minha mãe a falar daquele cruzar de pernas, e até da música dos Delfins a falar da Sharon Stone.

Mas o que é que isto representou para o cinema em geral?

Nunca deixando de ser um realizador de massas, Verhoeven também nunca deixou de ser um realizador independente, e é daí que vem a sua oscilação cinematográfica e a sua maneira de retratar as coisas. Porque quando se é verdadeiramente independente, é-se em espírito e não somente no papel, e quando se tem uma visão realmente diferente das coisas e que diverge dos ideais das grandes produtoras, criam-se e recriam-se as histórias e estórias que realmente se quer. Foi isso que ele fez, admita-se, mesmo que não sejamos seus fãs.

Mas o que é que um filme “estrangeiro” como o Delícias Turcas (1973) tem em comum com o Instinto Fatal (1992)? E o que é que Verhoeven nos quis transmitir com uma história como a de Soldados do Universo (1997)? (aposto que alguém gritou crítica política, algures) E o que é que realmente vale a pena no Homem Invisível (2000)? Porque sejamos honestos, é preciso ter-se uma mente muito aberta, ou então muito bipolar, para tanto gostar de clássicos intelectuais do cinema alemão (apenas por mero exemplo), como do Desafio Total. Porém, também acho que a culpa não é nossa. Fomos habituados a percursos lineares e previsíveis por parte de muitos dos realizadores que adoramos, porque sentimos que não nos desapontam e que são seguros. Para contrastar com isso, o Verhoeven usou e abusou de Hollywood e conseguiu, de forma fascinante, fazer passar a sua onda subversiva e violenta de cinema sem nos engolir em arvoredos pelo caminho.

Para celebrar a retrospectiva em sua honra que irá decorrer durante a próxima edição do Indielisboa, vamos explorar dois Verhoeven diferentes: aquele do antes, e aquele do depois – aquele que nos fez apaixonar por um homem violento feito de lata com pistolas como mãos, e aquele que tornou a sexualidade tão banal e desmedida que nos fez detestá-lo. Porque como todas as mentes desenvolvidas, existe um momento em que estamos tão confiantes das nossas capacidades que o falhanço é inevitável.

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