Crítica: O Conto dos Contos assusta e encanta

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Gosto muito da Disney: das bruxas más, dos príncipes encantados, do charme infantil das suas narrativas. Gosto ainda mais dos contos dos Irmãos Grimm: da sua criatividade, da sua violência, da sua profundidade; o seu realismo ainda agora mexe comigo. Hoje em dia, há uma certa justaposição de ambos na nossa consciência coletiva no que toca aos contos de fada mas, para mim, o seu estilo não podia estar mais distante um do outro.

Já O Conto dos Contos reúne o melhor de ambos os mundos. Há uma infantilidade nas suas narrativas complicada de ignorar, como a paixão incompreensível de Toby Jones, que incarna o Rei das “Terras Altas”, por um inseto gigante, ou as brincadeiras despreocupadas dos irmãos gémeos (separados à nascença), protagonizados por Christian e Jonah Lees.

Por outro lado, a atitude egoísta e sanguinária das suas personagens leva a desfechos de uma brutalidade que não estamos acostumados a ver neste tipo de histórias caracteristicamente infantis: réis morrem estripados por ferozes dragões, morcegos gigantes aterrorizam crianças no meio do monte, e ogres das montanhas aniquilam meio mundo para reaverem a sua princesa prometida.

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Estas histórias são adaptadas de uma colectânea de folclore do poeta Giambattista Basile, com versões antigas dos contos da Cinderela e da Rapunzel. Mas o que distingue O Conto dos Contos das suas adaptações mais recentes é a autenticidade com que tudo é tratado: desde os figurinos extravagantes e imaginativos, ao set design impecável, até aos monstros criados propositadamente para o filme (não há cá CGIs baratuchos para enganar o olho).

Quer dizer, há, a utilização de green screen não é propriamente invisível, mas Matteo Garrone, o realizador, esforça-se tanto para que tudo pareça real e verosímil com o enredo mirabolante do filme que é impossível não apreciar toda a atenção ao detalhe exibida orgulhosamente pela produção. Quando um dragão aparece nós acreditamos que aquilo é um dragão, não um monte de pixeis no ecrã como, por exemplo, o Smaug na trilogia do Hobbit. Por mais que o digital exista para facilitar a vida aos cineastas (e ajudar na criação do impossível), ainda não substitui os efeitos práticos, outrora tão presentes no cinema. As alusões metafóricas dos contos em si podem cair em falso, mas os visuais nunca o fazem.

O Conto dos Contos acaba por falhar na sua mescla de humor infantil e brutalidade adulta, cambaleando pelas suas diferentes histórias interligadas tematicamente. Mas a verdade é que não é um filme que vive da narrativa, mas sim dos visuais: vive dos cenários, das roupas, das criaturas, tudo elementos criados com um carinho pela imaginação humana que raramente vemos no grande ecrã.

Por isto vale a pena ir ao cinema.

3 stars

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