Shane Black e Arma Mortífera (1987)

96774

Polícias e ladrões. Sexo e violência. Raptos e natal. Tudo elementos inseparáveis uns dos outros, hoje em dia reciclados com tanto desinteresse que nós próprios já nos tornámos imunes ao seu charme simplista. Muito graças a Hollywood, muito graças à sobre-exposição a séries criminais como C.S.Is. e N.C.I.Ss., entre tantos outros programas detentores de siglas estapafúrdias. No meio deste mar morto de ficção de crime, será que ainda é possível encontrar algo original?

Shane Black diz-nos que sim. Aluno tornado multimilionário após uma série de guiões vendidos a Hollywood ao mais alto preço, Black ficou conhecido pelo seu estilo de escrita auto-referencial e provocador, recorrendo a apartes e expressões corriqueiras que desde então ficaram conhecidas como shane blackisms no meio cinéfilo.

Primeiro guionista, agora realizador estabelecido (desde o filme de culto Kiss Kiss Bang Bang (2005) ao blockbuster Homem de Ferro 3 (2013)), Black é um homem de prazeres simples e narrativas convencionais, com todos os plot twists que isso entalha.

856634523542

A magia do cineasta está em agarrar a audiência com as suas duplas de protagonistas hyper-carismáticas: quase sempre dois homens, pelo menos um deles pertencente ao ramo policial ou de investigação privada. As suas histórias começam quase sempre com um assassínio de uma mulher, ou um rapto de igual dimensão, sempre em circunstâncias igualmente cómicas e macabras. Black gosta da chocar o espetador com violência inesperada, mas nunca se esquece de a contrabalançar com momentos de humor delicioso que nos revoltam o estômago ao mesmo tempo que nos fazem gargalhar os dentes para fora.

Arma Mortífera foi o seu primeiro guião a ser produzido por Hollywood, e a sua genialidade depressa atraiu nomes como Danny Glover e Mel Gibson. O filme vai buscar muito aos noirsthrillers como The French Connection (1971), mas é dos primeiros a fundir esse género hard-boiled com o cinema de ação e de espetáculo.

Porém, não foi nada disso a definir Arma Mortífera como um dos grandes blockbusters dos anos ’80. Mel Gibson já era conhecido como o derradeiro badass graças à trilogia Mad Max, mas foi o seu magnetismo violento combinado com a pontaria cómica de Danny Glover a catapultar Arma Mortífera para o estrelato. É complicado imaginar dois outros atores a personificar Martin Riggs e Roger Murtaugh (apesar de, durante uns tempos, Bruce Willis ter sido nomeado para o papel de Riggs), pois o filme vive do seu carisma conjunto, do choque entre as personalidades díspares – e estranhamente complementares – das suas personagens.

Não podemos esquecer também a influência de Richard Donner e de Joel Silver no produto final: ambos realizadores e produtores experimentados (respetivamente) que respiraram vida no guião de Shane Black, página a página, letra a letra, até dele resultar o filme de ação brilhante que é Arma Mortífera. Não há uma cena a mais, ou sequer uma personagem supérflua no guião de Shane Black; todos os elementos da história contribuem em igual medida para a fluidez do enredo, que não cansa apesar de todas as cenas de ação empacotadas nos demasiado rápidos 100 minutos de filme.

Arma Mortífera deu o pontapé de partida à carreira genial (mas turbulenta) de Shane Black, e este artigo é o primeiro na nossa retrospetiva ao seu trabalho muito adorado mas, também, muito esquecido. The Nice Guys está à porta, e por aqui já sofremos de antecipação.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s