Crítica: Batman v Superman e vamos ser todos amigos

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Não gostei de Batman v Superman.

Até ao intervalo, ainda estava disposto a acreditar naquela empreitada. As cenas desenrolavam-se num emaranhado confuso de linhas narrativas, saltando de personagem para personagem, de Gotham para Metropolis, sem nenhuma lógica compreensível. Num momento, Lois Lane investigava um massacre em África, no momento a seguir Lex Luthor armava-se em contrabandista de kryptonite; tudo isso enquanto Batman andava à caça de um terrorista chamado The White Portuguese (o peito coletivo da sala de cinema enchia-se de orgulho sempre que repetiam o nome no grande ecrã), e não podemos esquecer as aventuras futebolísticas do repórter Clark Kent aqui e ali.

Não é como se as cenas, por si só, fossem más. Nada disso. A maior parte até era interessante, com toda a conversa sobre Deus e a confirmação do seu poder na Terra através do Super-Homem; e as restantes eram, no mínimo, divertidas, como o jornalista de Laurence Fishburne a malhar no cachaço metafórico do Clark Kent. O problema é que, no seu todo, deixavam de fazer sentido. A alegoria perdia a sua piada quando tudo o que víamos era o Super-Homem a fazer caras feias e grunhidos imperceptíveis, e o fator diversão foi diminuindo a cada gemido confuso do Lex Luthor.

Zack Snyder, o realizador, tem um olho para a composição visual, um certo sexto sentido para a teatralidade intrínseca ao género de super-heróis que os filmes da Marvel não têm. Junto com a fotografia de Larry Fong, é capaz de oferecer autênticos regalos para o olho, absorvidos no hyper-contraste dessaturado mas multi-colorido da sua cinematografia (cem vezes melhor que a palete cromática acinzentada de Homem de Aço (2013)).

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Infelizmente, não sabe contar histórias. Ele é um estilista, um esteta da violência com pretensões filosóficas capaz de nos agarrar pela garganta, sufocar-nos até ao limite, só para nos largar e abandonar sem qualquer consequência.

A trilha sonora de Hans Zimmer e Junkie XL entrega-se desenfreadamente a esta realização esquizofrénica: o estilo de composição mais clássico de Zimmer acalenta o heroísmo confuso do Super-Homem, ao passo que a brutalidade eletrónica de Junkie XL pinta com energia as cenas do Batman. Super-heroísmo resignado e violência vigilante chocam nestas duas soundtracks imaculadas que, ao contrário do resto do filme, elevam todas as cenas pela sua mera existência.

Quando voltámos do intervalo, estava pronto: de olhos arregalados, à espera da titular cena de pancada que tanto me entusiasmava. Passou-se mais uma hora de conversa fiada até ela chegar. Tive uma série de crises existenciais durante esse bocado de fita. O que é que se estava a passar?! Um filme do Zack Snyder sem cenas de ação?! Um filme do Super-Homem em que o Super-Homem não faz praticamente nada?! O Ben Affleck é um bom Batman?!

O quê?!!

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Até que reparei em algo diferente. Ao meu lado, sentava-se um rapaz aproximadamente da minha idade. Estava curvado para a frente, absolutamente embasbacado com o desfiar do enredo na tela de cinema. Soltava guinchos de felicidade a cada palavra do Batman, gargalhava em momentos que, para mim, não tinham um pingo de piada, e murmurava para si mesmo os nomes de todas as personagens quando apareciam no ecrã pela primeira vez.

Fiquei estúpido. O gajo estava genuinamente a gostar do filme!

A partir daí, passei a estar mais atento às reações do meu colega de sala. Em todos os momentos que eu morria de brutal fastio, ele sorria de orelha a orelha. Sempre que revirava os olhos com o acting do Jesse Eisenberg, ele quase que batia palmas. Durante a cena de pancadaria entre o Batman e o Super-Homem, conseguia sentir os seus dedos cravados no banco ao meu lado. Eu podia estar a pensar no porquê daquilo tudo, mas ele estava a sentir aquilo tudo. Enquanto eu magicava o porquê do plano mirabolante do Lex Luthor, ele mordia o lábio; enquanto eu praguejava a burrice incessante do Super-Homem, ele temia pela sua vida.

Durante a batalha final ficou muito calado. Se eu tivesse super-audição, poderia jurar ouvir o coração dele a bater mais rápido sempre que um dos heróis estava em perigo. E eu ali, atónito, sem perceber o que havia para entreter naquele pastel insípido de ideias mal-formadas e cenas de ação montadas aos solavancos.

Não gostei de Batman v Superman. Mas esse rapaz à minha beira adorou-o. Entendam isso como quiserem.

4 stars

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9 responses to “Crítica: Batman v Superman e vamos ser todos amigos

  1. Não sei se podemos falar de spoilers aqui à grande e à francesa, mas, aqui fica o SPOILER ALERT. Eu gostei do filme. Acho que visualmente está muito bom, as poucas sequências de ação estão fantásticas (até aqui tudo certo com Snyder) depois o comboio descarrilou e começa a trapalhada. Batman a limpar pessoas como se não houvesse amanhã? Bruce Wayne não passa essa linha. Essa é uma das grandes motivações de Joker, é saber que Batman não mata. E agora? O que o impede de “despachar” o Joker? Se querem assumir que Batman é um killer convém explicar-me o porquê.
    O filme chama-se Batman v Superman, na altura do primeiro e único clash entre os 2 as motivações são demasiado fracas. Não vou falar do tema Martha. A trapalhada na montagem final do filme, cheio de saltos que quebravam o ritmo. O Jimmy Olsen é despachado nos primeiros 10 minutos do filme… What? o amigo de Clark foi assim a seco sem sequer falarem no nome dele. O Super-Homem salva apenas Lois Lane do terrorista saindo a voar com ele a furar paredes, não podia apenas o ter segurado? A Justice League é nos apresentada através de um mail com pequenos teasers e já com logos desenhados (grandes designers da Lex Corp ahahah).
    Sou fã de comics, acompanharam a minha infância e acredito que muita gente não percebeu o que se passou em certos momentos do filme mas, como está visualmente bonito passa em claro. Abordando rapidamente o final, Doomsday era completamente escusado bem como a morte de Super-Homem, poderia ser perfeitamente um Man of Steel 2.
    Notas positivas na minha opinião, Ben Affleck é realmente um bom Batman e Bruce Wayne, Jeremy Irons como Alfred está spot on, trazendo aquela arrogância que o caracterizava e uma promissora Wonder Woman. Continuo também a gostar de Henry Cavill como Man of Steel.
    Em resumo, um mau filme deste gênero será efectivamente fantastic 4 e não posso colocar Batman v Superman a este patamar. Tem coisas boas, dei-lhe uma boa nota, mas realmente está cheio de trapalhadas. Há muito tempo que não saía do cinema sem saber se gostei ou não de um filme. Desculpem o comentário gigante mas achei apropriado e bom para apimentar a conversa.

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    • Muito sinceramente, todas as críticas que passam por conhecimento prévio da banda-desenhada (e de outros filmes), não colam comigo. Desde Man of Steel que o Snyder tem vindo a estabelecer um outro tipo de universo super-heróico, e neste universo, o Super-Homem é um emo sem paciência para a humanidade e o Batman é um assassino. Ambas as suas personalidades fazem sentido no contexto do filme, e não acho que possam ser criticadas em relação aos nossos preconceitos das suas representações prévias. Mas concordo com o resto! Obrigado pela partilha de opiniões, é sempre bem-vinda! 🙂

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  2. Se eu estivesse também ao teu lado, em oposição ao rapaz, já seríamos dois a causar-te confusão. Dei por mim a sorrir com algumas das tuas descrições do rapaz, porque eu também reagi assim nalgumas cenas, tal como ele. Bem, o filme está a ser muito falado…. costumam dizer “mal ou bem, o que importa é que falem”. Mas acho que estão a dar demasiada importância a esta divergência de opiniões. Se fosse outro filme qualquer não havia tanto impacto como este e ia continuar a existir pessoas que gostam e não gostam, como em tudo.

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    • Acho que tem mais que ver com os extremos das opiniões do que com o facto de serem diferentes. O que se vê ou é “muito mau”, ou “muito bom”, e esse tipo de desfasamento críticos/fãs dá sempre que falar (e é, a meu ver, muito interessante). Claro que a maior parte da gente vai estar lá no meio (“é bom, nada de especial”), mas esse pessoal não se vai dar ao trabalho de reclamar com o que quer que seja porque está bem da vida 🙂

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