A Maternidade em Wolf Children (2012)

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Wolf Children é uma ode à maternidade.

Hollywood acostumou-nos a filmes e séries que relegam as personagens femininas a dois papéis, que muitas vezes se intersectam: o da mulher chata, e o da mãe galinha. A mulher chata, normalmente, é desempregada, uma dona de casa que, bem vistas as coisas, não tem sequer lides nenhumas, pois vive às custas do marido, que nem verme sanguessuga. A mãe galinha, por outro lado serve somente para “compor” a vida familiar do herói tipicamente masculino, que muitas vezes a trai com uma qualquer femme fatale como símbolo da sua “complexidade moral”.

Estes dois papéis são comuns aos típicos dramas de Hollywood (não é preciso procurar muito para encontrar uma mão cheia de exemplos). Claro que filmes de género (ação, ficção-científica) desde sempre diversificaram as personalidades encontradas em personagens femininas: basta pensar em Linda Hamilton no Exterminador Implacável (1984), ou Patricia Arquette em Amor à Queima-Roupa (1993). Mesmo assim, é quase impossível retirar o contexto sexual a essas personagens: o facto de Sarah Connor ser uma mãe é integral à narrativa do filme seminal de James Cameron, e a sensualidade de Alabama é um aspeto dominante da sua personalidade. Claro que há sempre excepções à regra, e nos últimos anos o paradigma tem mudado substancialmente (principalmente no pequeno ecrã), ao ponto de poderem ser escritas análises e listas alongadas sobre o papel da mulher.

Porém, para encontrarmos o ideal da representação da “Mãe” no cinema temos que nos afastar de Hollywood, e viajar até ao Japão de Mamoru Hosoda.

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Wolf Children conta-nos a história de Hana, uma mulher que casa com um lobisomem. Vivem felizes durante os tempos: têm duas crianças, um rapaz e uma rapariga, que crescem normalmente apesar de também serem lobisomens. Então, o seu marido morre, e Hana é obrigada a educá-los sozinha.

O que se segue é brutal: sem emprego, sem casa, sem sustento, Hana é obrigada a fazer o papel de mãe e pai para conseguir sobreviver com ambos os filhos. Muda-se para a aldeia, e lá reconstrói sem ajuda uma habitação praticamente destruída. Começa a cultivar alimentos nos terrenos adjacentes, e as montagens deste labor são das mais belas e emocionantes que já vi em versão animada.

Hosoda bebe muito da influência que Hayao Miyazaki teve (e tem) no anime em geral, principalmente na sua abordagem fantasiosa a circunstâncias banais da nossa existência. A introdução de criaturas sobrenaturais como lobisomens à narrativa ordinária de Wolf Children pode parecer, em primeira análise, superficial. No entanto, é um detalhe que exacerba a magia que é a conceção humana; ao introduzir um elemento estranho à nossa realidade, Hosoda está a também a aglutinar visualmente uma dualidade fácil de compreender: o animal e o homem, num só ser.

Os dois filhos de Hana representam ambas as facetas: Yuki, a rapariga, prefere a sua versão humana, enquanto que Ame, o rapaz, está mais interessado em passar o seu tempo como lobo. Yuki absorve a cultura citadina, faz amigos, socializa; Ame explora o mundo selvagem da floresta, e sente-se mais atraído pelos animais no seu interior do que os humanos lá fora. Hana sente-se dividida. Um filho puxa para um lado, o outro filho puxa para o lado contrário, e ela com uma casa para restaurar, com alimentos para cultivar.

Wolf Children é uma história dolorosa – e bela – sobre a maternidade como uma faceta irrevogável da vida adulta, mas não como um aspeto definitivo do sexo feminino. Hana aprende a amar os seus filhos, a aceitar as suas diferenças (e as suas diferenças em relação a si própria) e, no fim, a deixar cada um seguir o seu caminho, ciente de que fez o melhor que pode.

Isso, sim, é ser uma mãe.

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