Crítica: Diário de Uma Rapariga Adolescente

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A honestidade no cinema é complicada de encontrar.

Muito do que faz um filme passa por manipular sem vergonha uma audiência inocente: diálogos românticos sem sentido, lágrimas exageradas, pistas musicais no momento certo. Tudo isto são artifícios que, quando empregados corretamente, nos imergem na narrativa, por mais paradoxal que tal pareça. Reconhecemos todas as ferramentas da manipulação, e por isso mesmo entregamo-nos de corpo e alma à emoção do enredo.

No entanto, essa manipulação tem que ser, de certa forma, “honesta”. As dissimulações tão características do cinema criam uma distância agradável entre o mundo que consideramos “real” e aquele que vemos no grande ecrã, pelo que quando reparamos numa pinga que seja de desonestidade emocional, desligamos imediatamente do filme em questão. Esta é uma contradição que nós, como espetadores, aceitamos sem reservas.

A linha entre a manipulação honesta e a manipulação desonesta é muito ténue, pelo que é sempre uma surpresa agradável encontrar um filme tão descaradamente genuíno como Diário de Uma Rapariga Adolescente.

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Adaptado de uma novela gráfica, Diário de Uma Rapariga Adolescente podia-se ter limitado à cópia genérica de tantas outras histórias coming-of-age deste estilo. Felizmente, o despertar sexual de Minnie Goetze é de uma especificidade tal que encontramos algo original em todos os momentos do filme, seja quando esta observa com atenção um poster do Iggy Pop à procura do seu órgão sexual, ou quando tem uma quebra nervosa após um encontro amoroso.

Minnie é de tal forma consumida por este desejo carnal que, à primeira, parece roçar o ninfomaníaco. Pior ainda, é o facto de o canalizar para os amassos com o namorado da sua mãe, Monroe, um trintão galante que sucumbe à beleza jovial de Minnie, consequências que se danem. A relação que ambos desenvolvem depressa se torna mais complexa que o casual encontro sexual, e a personalidade da própria Minnie evolui para algo mais dominante, agressivo e, de certo modo, escravo às trivialidades da vida adulta.

A (quase) estreante Bel Powley protagoniza Minnie com uma fúria irreverente que é um deleite de se ver. A jovem de 24 anos rouba cenas a atores mais experimentados que ela, gritando, cantando, dançando, chorando e fodendo numa tour de force que permanece muito após os créditos descerem. Não é complicado perceber porquê: a novela gráfica foi escrita por uma mulher, e o filme é adaptado e realizado por Marielle Heller, também ela do sexo feminino. As emoções partilhadas pelas mulheres atrás da câmara e por Powley, a verdadeira heroína, saltam do ecrã para a audiência com uma honestidade que apaga qualquer artifício empregue até então. A exploração adolescente de Minnie (outros diriam devassidão) é mostrada sem qualquer juízo de valor, sem qualquer julgamento negativo que retire à protagonista a complexidade que lhe é merecida.

Diário de Uma Rapariga Adolescente pode sofrer da excentricidade visual que caracteriza muitos jovens realizadores influenciados pelo universo cinematográfico de Wes Anderson, saturando com as cores, com a direção de arte hyper-estilizada e com os recursos musicais que mais parecem símbolo de esquizofrenia do que agitação hormonal.

Mas é apesar disso um dos filmes mais genuínos que já vi, e provavelmente aquele que melhor representa – sem quaisquer papas na língua – a volatilidade da sexualidade adolescente.

3 stars

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