Crítica: Daredevil, Punisher, e baldes de sangue

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A segunda temporada de Daredevil é espetacular. É a melhor peça de entretenimento superheróico desde Guardians of the Galaxy em 2014 (*),  e uma sequela superior a qualquer outra que a Marvel tem produzido até à data. Introduziu-nos a mais personagens sem se esquecer de explorar as já existentes, adensou a mitologia do programa, e ofereceu-nos mais e melhor no que toca às sequências de ação que tanto definiram a primeira temporada.

Sim, o vilão surpresa deste ano pode não ter a mesma profundidade psicológica ou pura intensidade com que Wilson Fisk nos cativou, e o modelo de 13 episódios com uma hora continua a provar-se contraproducente para o desenvolvimento ritmado de uma narrativa. A ausência de um vilão consistente é aliviada pela introdução de anti-heróis como o Punisher e a Elektra, duas personagens cujas ligações emocionais com os nossos heróis são de tal forma complicadas que não permitem a existência de nenhum outro tipo de relação antagónica na série.

(*) Apesar de Jessica Jones ser a série mais madura e complexa no espólio da Marvel, não chega sequer aos calcanhares da segunda temporada do Diabo de Hell’s Kitchen. O fator diversão e a destreza técnica que Daredevil apresenta não têm, neste momento, qualquer rival.

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Já os 13 episódios são, talvez, o maior defeito da temporada. É um problema que todos os dramas da Netflix partilham (uns menos, como Orange is the New Black, outro mais, como Jessica Jones), visto sentir-se um esforço pesado por parte da equipa criativa para estender o enredo, que encontra o seu desenlace natural no 10º episódio de uma temporada. Os engenhos que criam para estender a história durante mais três episódios não são propriamente “gordura” narrativa; a questão é que criam problemas de ritmo e mesmo de plot que de outro modo não existiriam.

O mesmo acontece em Daredevil. Felizmente, a estrutura fragmentada desta temporada compensa o arrastar progressivo da trama: enquanto no ano passado o desenvolvimento e posterior confronto com Wilson Fisk ocuparam todos os 13 episódios, sem deixar espaço para outros fios narrativos respirarem (em detrimento de personagens secundárias como o Foggy e a Karen), este ano a temporada está dividida em blocos.

Os primeiro quatro episódios apresentam-nos ao Punisher de Jon Bernthal, os próximos quatro atiram-no para o background e introduzem a Elektra de Élodie Yung, e os restantes cinco convergem as diferentes linhas narrativas para um clímax mais natural que o inevitável e delongado combate com Wilson Fisk no ano passado. Este ritmo permite à audiência absorver melhor a carrada de novas personagens e relações que se vão desenvolvendo, ao mesmo tempo que se aproveita do estilo binge-watching que a Netflix tanto propicia.

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De facto, é complicado não carregar imediatamente no play de episódio para episódio, e Jon Bernthal é grande parte da razão para o fazermos. Bernthal protagoniza Frank Castle, a.k.a. Punisher, uma personagem que até agora tem-se relegado a filmes de série-B mais preocupados com a violência cartoon do que a sua caracterização fiel à banda-desenhada. Bernthal, por outro lado, não só faz jus à criação original de Gerry Conway e John Romita, Sr., como também se entrega de corpo e alma ao papel, numa das melhores performances do ano.

Este Punisher vai buscar muito ao Travis Bickle de De Niro: silencioso, com uma aparência estóica que dá a entender um durão de poucas palavras mas que, no fundo, só quer uns miminhos. Frank Castle é direto, bruto, mas quando o põem a falar, nunca mais se cala. Esta dimensão de homem quebrado e incompreendido é veiculada na perfeição por Bernthal, que durante os seus monólogos e outras conversas suga o ar das respetivas cenas ao ponto de ofuscar a performance dos restantes atores. O carisma de Bernthal é tal que praticamente torna Daredevil numa personagem secundária na sua própria série: em muitos aspetos, esta segunda temporada é mais o ano zero da inevitável spin-off do brutal justiceiro do que uma verdadeira sequela a Daredevil.

Felizmente, esse protagonismo “roubado” resulta extremamente bem numa temporada que atira cão e gato contra à parede à espera que colem. Com o Punisher vem a violência extrema; baldes de sangue e gore que faltavam a Daredevil para se destacar verdadeiramente das adaptações mais “realistas” de superheróis como o Batman do Nolan ou a série Arrow. Não há dedos suficientes para contar o número de olhos perfurados com objetos afiados nesta temporada, e o próprio uso da cor vermelha tornou-se mais significante da moralidade pantanosa dos nossos heróis (e do próprio fato de Matt Murdock) do que no ano passado.

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Por outro lado, temos Élodie Yung. A atriz brilha tanto quanto Bernthal ao interpretar Elektra, mas no extremo oposto da equação. Enquanto Frank Castle representa o universo pesadão e deprimente de Daredevil, Elektra representa o lado mais leve e heróico (mas não menos conturbado) da coisa: com Elektra, o nosso protagonista diverte-se, seja a roubar informação durante uma festa high-class, ou a pontapear a fuça dos diferentes ninjas no seu encalço. Com Elektra, Matt Murdock simplesmente ama ser o Diabo de Hell’s Kitchen, e não há nada mais gratificante para a audiência do que isso.

Esta dualidade é integral para as questões morais que a série coloca, e apesar de não levarem a lado nenhum no final da temporada, servem o propósito de intensificar aquilo que define Daredevil: as suas cenas de ação. Há duas sequências em particular que destronam a famosa luta no corredor da primeira temporada: uma com Daredevil, e outra com o Punisher. A primeira é mestria técnica no seu melhor: piruetas da câmara que seguem a coreografia impecável da equipa de acrobacias, através de um corredor até uma escadaria descendente. A segunda é mais pessoal: centra a câmara e limita os cortes aos movimentos de Frank Castle, e prende a atenção do espetador ao encher cada momento de espirros de sangue e gore basto para arrepiar até o mais veterano dos fãs. Bastava uma destas sequências para aplaudir a série este ano. Tivemos duas.

Talvez seja essa vontade de dar mais e melhor (com ênfase no melhor) que tão bem define esta temporada de Daredevil. Os criadores podiam ter-se limitado a repetir a estrutura do ano passado, com outro big bad como Wilson Fisk a antagonizar os nossos heróis. Em vez disso, experimentaram coisas novas e exploraram diferentes temáticas, com mais ação, mais gore, e mais drama. Nem tudo resultou, mas o balanço é de tal modo positivo que não há dedo a apontar.

Resta esperar pela terceira temporada e, quiçá, uma nova série com Frank Castle no centro da trama. Não desiludas, Netflix.

4 stars

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