Crítica: A Assassina nem o sono mata

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A Assassina é um filme-tese disfarçado de uma fita de ação. Grande parte do cinema oriental de artes marciais encontra-se sob a alçada do género de filmes wuxia, uma palavra que, traduzida à bruta, quer dizer “herói marcial”. Fitas como O Tigre e o Dragão (2000) de Ang Lee, ou Herói (2002), de Zhang Yimou pertencem a este género de filmes de ação particulares ao continente asiático.

Hou Hsiao-Hsien – o realizador de A Assassina – é um dos cineastas art-house mais proeminentes e mais apreciados por cinéfilos um pouco por todo o mundo. No entanto, o que distingue A Assassina de peças mainstream como as supra referidas é a sua dimensão hyper-artística, que mais parece querer pertencer a um museu do que a uma sala de cinema. Planos compridos dão lugar a planos compridos, minutos passam sem uma única linha de diálogo, com as personagens a olharem silenciosamente umas paras as outras como a quererem ganhar coragem para se falar.

Hou leva ao extremo a paciência da audiência, conduzindo a narrativa a passo de caracol. Depressa entramos num transe meditabundo, observando cada enquadramento arrastado até ao seu mais ínfimo pormenor: cortinas balançam languidamente de um lado para o outro enquanto personagens que nunca chegamos a conhecer (ou, pior, a compreender) debitam informação que, em primeira análise, nos parece quase alienígena.

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No meio de toda esta contemplação poética podem-se estar a perguntar: então, cadê a ação? Afinal de contas, A Assassina é um filme wuxia, e se há algo que não pode faltar num filme wuxia são os combates marciais de adagas e espadas e punhos e pontapés. A infeliz verdade é que nem isso há para apreciar: Hou apresenta-nos apenas fragmentos destes combates, cortados rapidamente que nem videoclip musical. Existem flashes de confrontos brutais aqui e ali, alguns movimentos elegantes, mas a ação é de tal forma retalhada que entra em choque com o ritmo arrastado do resto do filme.

É certo que essa é a intenção do realizador, e numa análise mais profunda chegamos à conclusão que A Assassina não é bem um filme wuxia, mas mais uma dissertação filosófica sobre esse género cinematográfico em particular. Hou aproveita-se das características de género para o desconstruir, retirando o prazer aos momentos climáticos de uma história mais tradicional, e eliminando qualquer gozo que o espetador tenha em assistir aos combates pseudo-prometidos que provavelmente lhe venderam o bilhete de cinema.

Se há algo que, a olhos mais conservadores, consiga “salvar” o filme, é a sua cinematografia. Ping Bing Lee já tem verdadeiras obras-primas assinadas por si, mas em A Assassina, o diretor de fotografia cria autênticos quadros em movimento, planos assombrosos que merecem pertencer a um museu para serem imortalizados pela sua beleza sem paralelo. É fácil render-nos ao charme de A Assassina exclusivamente pela sua vertente visual, mas isso seria desrespeitar todos os outros aspetos que a criação de uma peça de cinema envolve.

Em A Assassina, a ação é anti-ação; a narrativa é anti-narrativa; o filme é anti-filme. Hou Hsiao-Hsien concretizou a sua visão, mas infelizmente não é uma visão que eu consiga apreciar.

2 stars

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