Zack Snyder e Sucker Punch (2011)

567645

Sucker Punch é uma compilação de videoclipes musicais esticado para duas horas. Raro é o momento do filme que não é acompanhado por uma qualquer cover terrível, desencantada por Zack Snyder vá se lá saber de onde. A ação é montada ao ritmo dos instrumentos, e as sequências narrativas atropelam-se umas às outras, embaladas pela constante música a encher-nos os ouvidos.

Para além deste dilúvio sonoro, somos também bombardeados com imagens hyper-saturadas e movimentos de câmara incessantes, que ocupam o nosso campo visual como um tsunami a cair numa incauta praia repleta de turistas. Em Sucker Punch, Snyder atinge o pináculo da sua queda para o cinema como estética, sobrepujando qualquer tentativa de criação de um enredo linear ou emocionalmente tocante, em prol de um espetáculo tão estilizado que é capaz de dar diabetes aos sentidos.

Esta violação sensorial apoia-se numa temática central bem delineada mas mal concretizada: a do female empowerement clássica, transposta para o universo tradicionalmente masculino dos videojogos e pornografia upskirt. É uma piada de mau gosto com bastante potencial; infelizmente o adolescente de 16 anos em Snyder trai as suas boas intenções.

23478970

Emily Browning protagoniza Babydoll, uma jovem institucionalizada pelo seu padrasto, que se retira para um mundo alternativo de fantasia como forma de escapar ao manicómio onde se encontra.

As figuras masculinas de Sucker Punch são praticamente todas iguais: nojentos homens violentos, com uma tendência para violar tudo o que tenha duas pernas depiladas à mínima provocação. Este exagero até é compreensível, quando contextualizado no mundo estilizado do filme. O problema é quando Snyder se arma em cavaleiro andante, e atira as noções básicas do girl power contemporâneo ao mesmo tempo que as destrói com a sua perspetiva sexualizada do corpo feminino, a abundar de testosterona.

Nenhuma das protagonistas tem uma personalidade bem definida; e mesmo que de um ponto de vista intelectual entendamos as suas decisões ao longo da trama, nunca as sentimos verdadeiramente, pois estamos mais ocupados em observar os seus corpos desnudos, e os inocentes enquadramentos de cuecas coloridas e saias a voar.

8567645563

A questão que escapa a Snyder é a mesma que torna Sucker Punch num filme tão problemático e importante de se discutir: não é o facto das protagonistas passarem a maior parte da história de lingerie que derrota o seu núcleo temático; afinal de contas, num mundo ideal, cada um vestir-se-ia à sua maneira sem se preocupar com assédios ou violações (físicas e/ou psicológicas), seja a saia até ao tornozelo ou até às bordas do rabiosque. O problema é que nada nas ações destas personagens requer a óbvia sexualização masculina do seu corpo, pelo contrário: a sua demanda pela liberdade das grilhetas sociais e pressão viril pede que se definam como mulheres, diversas, singulares e tridimensionais, livres de qualquer olhar parcial (seja do realizador, seja da audiência).

As sequências de ação, na página, servem como metáforas visuais para esta luta pelos direitos da mulher, e o facto de mais parecerem saídas de um videojogo face a outra plataforma de entretimento qualquer é um golpe de génio vindo de Snyder, já que ainda em 2014 assistimos a actos de misoginia repugnante por parte de muitos gamers do sexo masculino. O sexismo é real, e o confronto entre estes dois mundos (o feminino do cabaret e o masculino dos jogos virtuais) podia ter sido tão melhor aproveitado por Snyder, sem diminuir em nada a energia cinética com que realiza estas cenas de ação visualmente demarcadas.

Enfim, Sucker Punch não tem ponta por onde se lhe pegue. É um filme bem intencionado que acaba por dizer o oposto daquilo que pretende, perpetuando a opressão sexista em vez de a desconstruir. E o pior disto tudo, é que nem de cérebro desligado dá para apreciar os aspetos técnicos da empreitada, visto sermos bombardeados de segundo a segundo com informação visual e sonora capaz de rivalizar com qualquer guerra nuclear no horizonte.

Diz-se que devemos pensar duas vezes antes de abrir a boca. Ora, Snyder devia ter pensado duas vezes antes de realizar Sucker Punch.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s