Crítica: Orgulho, Preconceito, Zombies e Tédio

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Aquilo que Orgulho e Preconceito e Zombies (recuso-me à tradução oficial portuguesa, por razões óbvias) pede emprestado à obra original de Jane Austen até resulta bem. Não seria de esperar outra coisa, visto a história de Austen ser um clássico intemporal que já resistiu a um sem número de adaptações menos condecoradas. Era preciso tentar mesmo mesmo muito para estragar a raiz de um livro como Orgulho & Preconceito, e por mais que esta adaptação tente, não o consegue fazer.

No entanto, a distinção entre livro/filme fica mais nebulosa quando entra na equação o facto de Orgulho e Preconceito e Zombies também ser, originalmente, um livro, e não um filme. De repente temos uma adaptação de uma adaptação, e as referências tornam-se de tal modo paródias de si mesmas que é impossível perceber aquilo que devemos levar a sério, ou não.

É certo que uma comédia de terror como Orgulho e Preconceito e Zombies nunca pede para ser levada de carranca na face; afinal de contas, ainda possui algumas divertidas gags visuais (como o ranho a escorrer pelo destroçado nariz de um zombie em decomposição). Mas a verdade é que Burr Steers, o realizador, não tem controlo nenhum sobre o tom do seu filme: parece confuso com o melodrama de época que Jane Austen cunhou, ao mesmo tempo que explora de forma desleixada o lado mais cómico de algumas personagens. O primeiro acto é diversão de ação/terror pura e dura, que depois evoluí para um drama de época salpicado com alguns zombies aqui e ali, apenas para concluir num clímax super-sério sem pinga de comédia, terror, ou sequer drama.

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Notam-se bastantes problemas com a montagem quase amadora do filme, que omite pormenores importantes para algumas cenas, enquanto salta espacial e cronologicamente sem explicação ou justificação para a audiência. O pior é quando Steers começa a copiar enquadramentos e movimentos de câmara da versão de Joe Wright (já com 11 anos) sem o panache visual deste realizador: parece um estudante de cinema a regurgitar o que aprendeu nas aulas sem adicionar nada de novo à conversa. Quase todos os aspetos relativos à realização falham em Orgulho e Preconceito e Zombies, e muito se deve à mão desajeitada de Steers.

Mesmo assim, o realizador conseguiu reunir um elenco decente: Matt Smith é um deleite como o graçolas sem graça Mr. Collins, Jack Huston faz mais do que lhe pedem como o vilão incompreendido Mr. Wickham, e até Lena Headey aparece para animar as coisas.

Lily James, por exemplo, é uma Elizabeth Bennet com bastante carisma; a atriz tem uma presença possante que consegue cativar o espetador, apesar dos diálogos e ações ilógicas que o argumento teima em lhe atirar para o colo. O filme tem em James uma excelente protagonista, e caso o ângulo de mulher-guerreira fosse explorado de forma mais vincada, de certeza que a atriz teria carregado o enredo com mais capacidade. É uma oportunidade perdida, verdade seja dita: esta adaptação podia ter falhado em muita coisa, mas deixar escapar a ligação orgânica entre os hábitos bélicos da sua Elizabeth Bennet e os ideais feministas ainda hoje controversos desta heroína é só símbolo de toda a deficiência inoportuna do filme.

Orgulho e Preconceito e Zombies tenta ser uma adaptação fiel de outra adaptação mais mirabolante, mas acaba só por trazer zombies à baila (e ao baile também), sem qualquer outro trunfo na manga.

1 star

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