Zack Snyder e Lenda dos Guardiões (2010)

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Zack Snyder devia realizar mais filmes de animação infanto-juvenis. Não só é a sua estética operática ideal para as mentes da criançola a fervilhar com imaginação, mas também se pode limitar à exploração superficial dos seus filmes, e mesmo assim sair impune. Isto não é dito como injúria, mas sim como uma glorificação da queda de Snyder para a simplicidade das suas narrativas, em prol de cenas de ação vibrantes com o único propósito de acelerar a corrente sanguínea.

Em Lenda dos Guardiões, o mundo das corujas é ameaçado por um bando de vilões racistas, que rapta Soren, o nosso herói, e o seu irmão, Kludd. Soren é um sonhador, obcecado com os mitos dos heróicos Guardiões que em tempos salvaram o reino do perverso Metalbeak. Kludd, por outro lado, faz pouco destas histórias, entrando em choque com os ideais retos do seu irmão.

Esta premissa apoia-se na relação fraterna que tanto acompanha as fitas de Snyder, desde o grupo de sobreviventes em O Renascer dos Mortos (2004), até à irmandade superheróica de Watchmen (2009). É interessante a forma como o realizador se aproxima do tema sempre com uma perspetiva bélica: o apocalipse zombie, o confronto entre espartanos e persas em 300 (2006), o racismo puritano das corujas más em Lenda dos Guardiões (aos quais Kludd sucumbe) versus a nobreza altruísta dos nossos heróis (que Soren partilha).

As relações fraternais são importantes para Snyder, mas nunca foram tão relegadas para segundo plano como em Lenda dos Guardiões.

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De facto, no que toca à narrativa, não há nada de especial no filme. O enredo parece apressado, as suas personagens pouco desenvolvidas, como se a duração de 90 minutos fosse uma barreira incontornável para o argumento, uma adaptação do homónimo livro escrito por Kathryn Lasky.

O prelúdio idílico no lar de Soren e Kludd é rapidamente interrompido por um abrupto rapto, que nos apresenta a uma seita de vilões sem profundidade apesar da sua motivação pesada: a de erradicar todas as espécies de corujas que não a sua, que consideram como sendo a “mais pura”. Os paralelos à nossa própria história são óbvios, mas largamente ignorados por um Snyder mais concentrado nos visuais do filme do que no seu desenvolvimento temático.

Lenda dos Guardiões não é um Toy Story (1999), ou um Up – Altamente (2009), que apesar de oferecerem entretenimento fácil para a canalha, também servem como emocionantes e profundas aventuras pela psique humana (e adulta). Não, Lenda dos Guardiões limita-se à ação fácil, aos confrontos físicos entre as diferentes castas de corujas, que se vestem no que facilmente seria descrito como armadura bondage noutras circunstâncias.

No entanto, são confrontos lindíssimos, acompanhados por uma cinematografia estimulante, repleta de cores que enchem o olho. Daí congratular Snyder por se manter na sua área de conforto, e oferecer ao público-alvo do filme tudo aquilo que ele quer com o máximo de empenho visual. A técnica start/stop do slow-motion durante as batalhas funciona na perfeição em contexto animado, talvez ainda melhor do que nos restantes filmes live-action de Snyder.

A verdade é que o homem tem alguns problemas em aprofundar as suas histórias, ou em torná-las sobremodo especiais, como acontece em Lenda dos Guardiões. Mas se há algo que ele consegue fazer, é regalar-nos com cenas de pancadaria épicas, seja entre Adónis esculturais, ou corujas blindadas. Pelo menos os olhos não se queixam.

2 responses to “Zack Snyder e Lenda dos Guardiões (2010)

  1. Que boa recordação e confesso que não me lembrava que tinha sido o Zack Snyder a tomar rédeas deste filme. Gostei deste filme, e lá está, o forte de Zack é o visual porque Metalbick está fantástico bem como os pormenores das unhas metálicas para o combate, os voos entre outros nuggets. O veterano de guerra também um personagem engraçado. Um filme que voo debaixo do radar. Excelente review.

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