Oscars: Irritado com o Iñarritanço

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Ando desde segunda-feira a ruminar um artigo acerca dos resultados dos Oscars (que podem encontrar aqui), mas a controvérsia desnecessária tem sido tanta que perdi todo o interesse em juntar a minha voz dissidente à conversa. Uns regurgitam sem fim aquilo que leram em textos mais respeitáveis, outros limitam-se à ofensa barata que não chega a lascar a superfície dos problemas da cerimónia, dos nomeados e dos vencedores, pois aquilo que mais importa são as visualizações e não o discurso inteligente acerca de cinema que a internet tanto propicia (ou não).

Por entre esse labirinto particular de ódio, fui de focinho contra o abismal artigo do Exmo. Luís Miguel Oliveira do jornal Público, e antes de me rir, chorei por alguém tão desfasado da cultura cinemática contemporânea, tão afastado dos valores que representam a atualidade dos multiplexes (*), ser pago para escrever sobre cinema, sobre a cultura de sétima arte que simplesmente parece não compreender.

(*) Aos quais os filmes dos Oscars pertencem quase inequivocamente. A opinião de alguém categoricamente contra a cerimónia americana pode ser interessante quando tem em conta um respeito pela audiência do programa (e dos filmes em questão), mas nunca interessa quando se limita a vilipendiar o gosto dos outros sem fundamento algum – para além de querer ser “provocador” ou “do contra”.

Sei que a ofensa contrária à opinião popular é aquela que atrai mais visualizações e, neste mundo eletrónico, mais visualizações equivalem a mais dinheiro, pelo que apesar de todos os comentários desfavoráveis e da indignação coletiva dos seus leitores, os cabeças do Público devem estar a sorrir com as notas nas mãos e a dar chapadinhas de consideração no rabinho do LMO. O que nos importa alienar parte da nossa audiência se voltam sempre para reclamar, não é verdade?

Tal realidade, mais do que qualquer patetice do Chris Rock na 88ª cerimónia dos Oscars, irrita-me. Frustra-me saber que a integridade jornalística portuguesa (no que toca à crítica profissional de cinema) se enquadra no snobismo de elite académico, mais preocupado em debitar os adjetivos bonitos que se leu de manhã no dicionário do que fazer propriamente sentido naquilo que se escreve. Há um lugar para isso, mas esse lugar deve existir em sites frustrados como este mesmo Jump Cuts, não no jornal que a maior parte dos Portugueses ainda compra (ou, pelo menos, subscreve no Facebook).

Ao situar esse discurso num meio jornalístico tão responsável/respeitável como o Público, LMO e companhia estão a destruir ainda mais a já diminuta cultura do moviegoer português. Pouco vamos ao cinema apoiar a dita sétima arte (nacional e/ou estrangeira), muito por falta de dinheiro mas também por falta de vontade. Com o dinheiro, o Público (e os restantes meios de comunicação) não podem ajudar, mas com a vontade? Ora, é para isso que deviam existir. Dissecar, analisar, discordar (com respeito); acima de tudo, instruirinformar devem ser sempre os princípios de qualquer crítico que se preze, seja de cinema ou do que for, mas não podemos subvalorizar a importância que o texto crítico tem para o público generalizado, e se aquele só nos apresenta um NÃO irredutível (ou uma bola/estrela em cinco, vá se lá entender o aparvalhado sistema de avaliação de algumas entidades), a vontade passa de pouca a inexistente.

Ficar ofendido com a vitória de um dos melhores cineastas contemporâneos (e eu nem ligo muito ao Iñarritu como pessoa, veja-se), e passar a ofendê-lo sem argumentação decente? Isso é para putos hormonais com a ilusão de uma “opinião diferente”, não para profissionais especializados.

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7 responses to “Oscars: Irritado com o Iñarritanço

  1. Bem observado. Concordo, já li algumas criticas do Público que nem queria acreditar. Acho que é tempo de muitos se atualizarem porque nem tudo tem que ser cinema Francês dramático com 4 pessoas na sala de perna cruzada e a pensar que coisa fabulosa e ninguém liga. Há oferta de cinema para todos os gostos há que saber e dar o devido valor. Não sou critico, não quero nem tenho formação para isso, sou apenas um Designer amante de cinema que gosta de partilhar opinião pessoal para quem quiser ler. Vamos acreditar que 2016 será um bom ano nas salas de cinema Portuguesas com tanta oferta que temos.

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