Crítica: Deadpool, chimichangas e muito amor

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Deadpool é um bicho estranho.

Se, por um lado, Tim Miller, Ryan Reynolds e companhia finalmente trouxeram para o grande ecrã o brejeiro superherói nas condições que este merece, por outro a forma como se apresenta e se estrutura também tem pouco que ver com “cinema”. Deadpool, o filme, assemelha-se mais a um álbum de recortes com hilariantes memórias do que a uma fita cinemática consistente e, no entanto, Deadpool, a personagem, é o suficiente para colmatar qualquer falha do estreante realizador.

Então, em que ficamos?

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Há que entender que Deadpool, por mais divertido que seja, não é o filme ideal: os custos de produção são quase triviais quando comparados ao que se espera de um filme de superheróis (58 milhões de dólares face aos 200 milhões de um Guardiões da Galáxia (2014)), e o argumento sofreu por isso. Cenas truncadas, uma clímax final mais low-budget do que seria de esperar; mas tal foi o preço a pagar para a FOX arriscar Deadpool com a classificação “R” nos states, a infame corta-tesão para as grandes produtoras de Hollywood.

Esta classificação permitiu a Deadpool ser tudo aquilo que queria ser: violento, mal-educado, sexual, arriscado, nojento. Cabeças são decepadas sem remorso, Wade Wilson (Ryan Reynolds, no papel que nasceu para protagonizar) aperta os seios de Vanessa (Morena Baccarin) sem qualquer pudor, e as discussões amigáveis entre Deadpool e Colossus mais parecem saídas de um sketch grosseiro do Fernando Rocha a estrear no Levanta-te e Ri do que de uma fita americana de superheróis.

Deadpool é brilhante em todas as cenas em que deixa as suas personagens atirarem-se às gargantas um dos outros (figurativa e literalmente), sem se preocupar com ofensas vazias aos membros da audiência. Mas depois esquece-se de as desenvolver, ou de sequer pensar num arco narrativo que preencha o filme.

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Não é como se Wade Wilson precisasse de mudar a sua personalidade ao tornar-se no desfigurado anti-herói – Deadpool não é nenhum Homem-Aranha à procura de responsabilidade -, mas a verdade é que nenhuma das personagens secundárias alimenta uma progressão emocional coerente ao longo de toda a trama, muito por causa de um guião deficiente que se limita a raspar a superfície das suas personalidades rebuscadas.

É discutível se tal é necessário num filme tão despreocupado e irreverente como Deadpool; mas, na minha opinião, é quase obrigatório preencher uma narrativa com pessoas que queremos ver derrotadas e/ou glorificadas, principalmente quando falamos de uma fita de pipoca como esta. Deadpool, para além do homónimo protagonista, não as tem: apenas esboços mal delineados do que são supostos heróis e vilões. Ajax, o principal antagonista, tem uma “personalidade”, mas fora isso é tão genérico que mais parece uma carta de Pokémon repetida, perdida de outro baralho qualquer.

Enfim, tudo isto são problemas menores para o público que se tem divertido à brava com Deadpool, bem sucedido o suficiente para merecer uma sequela imediata e a vergonha de todos os produtores que só pareciam querer que falhasse no box-office.

A verdade é que Deadpool, tanto o filme como a personagem, tem carisma para dar e vender. O melhor que faz é aproveitar-se ao máximo do seu charme juvenil, para conquistar a audiência sôfrega por algo diferente neste mundo superlotado com superheróis, quase intercambiáveis entre si. O seu sucesso é inegável, e entende-se o porquê dele no contexto cultural dos dias que correm, mas estaria a mentir se também não admitisse as suas gritantes falhas.

Quem gosta, vai cuspir os pulmões de tanto rir. Quem não gosta, mais vale apertar a carteira no bolso e ficar em casa a revirar os olhos com a internet infestada pelo “Merc with a Mouth”.

3 stars

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2 responses to “Crítica: Deadpool, chimichangas e muito amor

  1. Desenvolver as personagens secundárias e o enredo mais profundo em torno dele deve ser o objetivo dos próximos, suponho.
    Este Deadpool deve ter saído mais com vontade de mostrar que podiam tratar O Deadpool decentemente, para convencer o pessoal que aqui há um herói diferente dos outros, que talvez valha a pena comprar bilhete para as sequelas.
    Numa altura em que os filmes de super-heróis são todos mais do mesmo, o argumento deste chegou para um grande statement acerca deste “herói”, quase apenas e só. Acho que deve ter sido um objetivo pensado de início, não um acidente. Mais uma maneira de jogar com o orçamento que tinham, mais valia gasta-lo a trabalhar o Reynolds que perde-lo em personagens secundárias que não fazem assim tanta diferença numa fase inicial.
    Curti Deapool pra caralho (pede esta expressão, pede) mesmo. É o que é, não se desculpa por isso, o Ryan Reynold serve para pouco mais que isto, mas para isto serve satisfatoriamente, e pareceu me uma coisa feita com uma pica tremenda, que é como quem diz muito amor, e esse ingrediente compensa muita coisa. Ou então não. Para os românticos compensa.

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    • Tens toda a razão, e é algo com que ainda me debato. Será que eu, como espetador, precisava de um maior desenvolvimento do resto da narrativa/personagens para gostar mais do filme? Ou bastava mais Deadpool? A dedicação e paixão de toda a gente por detrás do filme compensa quaisquer problemas que tenha com ele, mas não deixa de me causar comichão em certos sítios. É estranho. Ou então estou só a querer ser do contra. Também é uma possibilidade.

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