Irmãos Coen e Crueldade Intolerável (2003)

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Por mais incrível que pareça, Crueldade Intolerável é um filme dos Irmãos Coen. Após 20 anos de tiros certeiros, a dupla de cineastas lança por fim uma bala em seco, num traste de uma fita com poucos aspectos redentores. O enredo trata da vingativa Marilyn (Catherine Zeta-Jones), que procura dar o dito golpe do baú a um advogado de Beverly Hills (George Clooney), conhecido por ser um mulherengo irremissível.

Ora, se não fosse pelo demente e hilariante Arizona Junior (1987), diria que os Coen simplesmente não têm naco para as comédias românticas. No entanto, esse filme existe, e a verdade é que é um dos melhores na carreira dos realizadores. Então porquê submeterem-nos a Crueldade Intolerável? Estavam desinspirados, ou à procura de um ordenado? Os Coen desinspirados dão-nos Barton Fink (1991), e quando os acusam de encher os bolsos oferecem-nos de mão beijada O Grande Salto (1994).

Então, porquê?

Não é como se Clooney e Zeta-Jones não se portassem bem nos respetivos papéis: Zeta-Jones em particular, com o seu encanto hepburniano, domina com furor todas as cenas que partilha com Clooney. E apesar do charmoso ator experimentar com sucesso reduzido o slapstick de Irmão, Onde Estás? (2000) (a sua primeira colaboração com os Coen), consegue vender a sua personagem de uma forma que um ator menos carismático não conseguiria. Até Billy Bob Thornton surge para animar os procedimentos como um tagarela inveterado que rouba a atenção do espetador nas cenas em que aparece.

Infelizmente, tudo o resto cai no limbo do medíocre. É que Crueldade Intolerável não é propriamente um mau filme: não tem muito de positivo, mas a cinematografia de Deakins é competente (como não podia deixar de ser), e a narrativa é simples e bem construída (ainda que derivativa e aborrecida), com uns diálogos repletos de tiradas que só podiam sair das mentes mirabolantes dos Coen. Mas o todo é muito, muito menos que a soma das partes, o que resulta num filme pouco memorável, capaz de se escapar do nosso imaginário um par de minutos depois dos créditos rolarem. Esse é o seu pior pecado.

De facto, parece que a dupla de irmãos simplesmente não dominava a 100% o conteúdo do argumento. A cena inicial é retirada de uma qualquer comédia sensaborona do Adam Sandler, seguida de apartes delongados da personagem bidimensional de Clooney com um humor mais deadpan, tão característico aos cineastas. O choque tonal de cena para cena é imenso, sem falar de quando, repentinamente, somos transportados para um plot de homicídio com queda noir e uma veia de comédia violenta, mais negra do que tudo o que tinha caracterizado o enredo até então. A mistura de géneros é uma faceta adorada e aprimorada pelos Coen mas, aqui, parece só amadora e preguiçosa.

Enfim, Crueldade Intolerável são duas horas intoleravelmente cruéis.

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