Crítica: Quarto manipula e destrói

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Quanto mais penso em Quarto, menos gosto dele. Há algo que se perde a meio do filme: talvez seja a honestidade das personagens, a emoção genuína que durante a primeira metade salta do ecrã para a audiência como se a quarta parede não existisse; ou então é o gás da narrativa que começa a falhar, reduzindo a fumos aquilo que podia ter corrido durante mais meia hora sem aborrecer.

Mas deixemo-nos de analogias baratas. Quarto é um bom filme, assegurado por duas excelentes – sublinho excelentes – performances de Brie Larson e Jacob Tremblay (*), que habitam as suas personagens como se fossem uma segunda pele. Não sei como Lenny Abrahamson, o realizador, conseguiu sacar uma performance destas de um rapaz de 8 anos, mas certamente o fez com muita dedicação e amor à camisola, porque lidar com crianças em sets de cinema nunca é fácil. A responsabilidade é de imediato acrescida, e gerir um ensemble de atores e técnicos profissionais em cima disso ainda mais complicado é.

(*) Tremblay, para a sua tenra idade, está ao nível de qualquer um dos nomeados para os Oscars como ator principal, ou como ator secundário se por aí quiserem enveredar. O rapaz é magnético durante todos os preciosos segundos que ocupa o ecrã.

No entanto, a verdade é que se não fosse por este par de representações exemplares, muito de Quarto cairia em falso no coração da audiência. A configuração narrativa do filme é manipuladora (até para um filme dos Oscars como Quarto indiscutivelmente se classifica), abusiva, e excessivamente sentimental, tanto para o espetador como para as personagens. A clausura de Joy e Jack Newsome é claustrofóbica e violenta, mas é claustrofóbica e violenta por ser escrita de maneira a exagerar tudo isso ao nível do melodramatismo de novela.

Em mãos menos precisas, Quarto seria um embuste de prestígio, parte daquele género de cinema que existe com o único propósito de insultar emocionalmente uma frágil audiência. Felizmente, Abrahamson, Larson e Tremblay constroem um mundo insular no titular quarto da história, protegendo-se mutuamente (dentro e fora do ecrã) das ameaças externas que os forçam àquelas posições. Joy e Jack esquivam-se do seu captor com imensa paixão, e Abrahamson trabalha a dobrar para que isso não soe falso. A primeira metade de Quarto é, assim, arriscada mas habilmente concretizada. É na segunda que se perde, dispersando-se numa série de cenas que meandram em emoções mais nebulosas, complicadas de passar tão bem para um espetador com o coração já em pequenos pedaços.

No fim, Quarto é um filme que talvez se safasse melhor com um pouco mais de espaço (no pun intended) para respirar.

3 stars

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