Irmãos Coen e O Barbeiro (2001)

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O Barbeiro é, talvez, a obra menos visto e menos apreciada dos Irmãos Coen. Filmada num magistral preto e branco, com um elenco pouco ortodoxo em Billy Bob Thornton, Frances McDormand, James Gandolfini e Scarlett Johansson; O Barbeiro impressiona pela sua minúcia e narrativa pouco convencional. Penso que mencionar isso quando me refiro aos Coen não é novidade nenhuma, mas aí está.

Um lacónico fumador inveterado, que trabalha como barbeiro, faz chantagem com o amante da sua mulher, de modo a poder investir numa cadeia de limpeza a seco, até que o seu plano dá para o torto.

Ao contrário de Fargo (1996), O Barbeiro não possui entoações exageradas de comédia negra, nem os momentos de violência extrema que também caracterizaram esse filme. Ao mesmo tempo, não se perde no poço miópico do niilismo como Este País Não é Para Velhos (2007) viria a fazer, seis anos depois. Em vez disso, acalenta um pesado tom de melancolia subtil, acompanhado por temas existencialistas que ficam apenas atrás de Um Homem Singular (2009) no que toca ao seu non-sense na filmografia singular dos Coen.

Billy Bob Thornton é uma pérola no papel de Ed Crane, o atípico barbeiro, que mantém a sua expressão de apatia ao longo de todo o filme. Não reage quando descobre que a sua mulher o anda a trair, nem mais tarde, quando ocorre um horrífico homicídio mesmo à sua frente (wink, wink). Simplesmente, está lá, de boca fechada e ombros caídos. Ed Crane é um homem estranho.

Com efeito, O Barbeiro também é um filme estranho: é um filme que fala de assassinos, golpes criminosos, misantropia e extraterrestres durante duas horas que passam num ápice impressionante. Os Coen encontraram aqui o ritmo perfeito para o seu tipo particular de cinema (que tão cedo não voltaram a repetir), fundindo o noir com ficção científica e drama em igual medida, explorando sem medo a apatia humana como não tinham feito até então. Ed Crane não é um psicopata como Anton Chigurh, ou sequer Gaer Grimsrud, é antes um ser humano recatado, sem lugar aparente no mundo. Essa distância parece justificar o espírito removido que Crane demonstra perante o que o rodeia, e é uma atitude que despoleta todos os acontecimentos do filme.

A cinematografia a preto e branco de Roger Deakins é lindíssima, talvez uma das melhores na sua extensa (e impecável) carreira. As sombras são compridas, ricas em detalhe e profundas na forma como caracterizam as personagens em questão. O filme delonga-se nas silhuetas em algumas cenas particulares, permitindo à audiência absorver as localizações que Ed Crane percorre de vontade inexistente, sem razão aparente exceto vangloriar-se da exímia direção de fotografia.

Para alguns, O Barbeiro pode parecer demasiado lacónico, sem rumo. O final pode ter um trago de anti-climático, e a história até se alonga demasiado na voz-off deambulatória (embora terrífica) de Ed Crane. Mas é um filme com uma cadência narrativa meticulosa, introduzindo e despachando personagens nos momentos perfeitos, que ostenta uma quase inexistência de elementos supérfluos ao enredo.

Pouco visto, pouco apreciado. Mas porventura uma das melhores obras da parelha de irmãos cineastas.

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