Irmãos Coen e O Grande Salto (1994)

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Tudo é exagerado em O Grande Salto. Os cenários são enormes, as performances estilizadas ao ponto do excêntrico pateta; a própria narrativa parece carregar um tom de comédia épica que se perde em prol da extravagância da trama. Infelizmente, tal como o homónimo edifício onde decorre a ação principal do filme, O Grande Salto é demasiado, ahem, “grandioso” para o seu próprio bem.

Quando Waring Hudsucker, o patrão da bem-sucedida Hudsucker Industries, comete suicídio, o seu conselho administrativo, encabeçado por Sidney Mussberger (Paul Newman), engendra um plano maquiavélico para fazer dinheiro: eleger um completo idiota (Tim Robbins, como Norville Barnes) para dirigir a companhia.

É através deste enredo mirabolante que O Grande Salto se assemelha às comédias screwball do Hollywood de outrora, não como uma simples homenagem, mas mais à laia de um primo afastado. Os Coen citam abertamente filmes do Preston Sturges, e o tom sentimentalista vai buscar muito a fitas do Frank Capra como Do Céu Cai Uma Estrela (1946).

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Porém, o glamour daquela era, irreplicável como é, arrasta O Grande Salto pela lama. Temos o nosso herói, incompetente mas decente, em Norville Barnes; o vilão quirky em Sidney, e a auto-proposta protagonista Amy Archer (Jennifer Jason Leigh). Newman é o que mais se safa no particular tom humorístico do filme: mastiga o cenário da mesma forma que mastiga os cigarros na sua boca, sobranceira e ferozmente. Robbins e Jason Leigh, pelo contrário, parecem perder-se sob a realização dos Coen (talvez seja por isso que não entraram para o estábulo recorrente de atores da dupla de cineastas). Demasiado ansiosos por fazer rir com o diálogo delicioso dos realizadores e argumentistas, mas sem o recato necessário para verdadeiramente vender as suas personagens.

Por outro lado, O Grande Salto é único na extensa filmografia dos Coen por ser talvez aquele com a produção mais vistosa (isto é, até Salvé, César! irromper pelas salas de cinema daqui a umas semanas), e aquela que mais naturalmente se liga à temática da história. O relógio embutido no edifício da Hudsucker Industries, o comprimento infinito desta mesma estrutura, e as agigantadas salas dentro dela diminuiem as personagens que por elas caminham, como expressão física da colossal força do destino.

A Fortuna e a forma como esta intervém (positiva ou negativamente) na vida dos comuns mortais é uma temática que atravessa todas as obras dos Coen. Em O Grande Saltoela é literalizada pelas redondas invenções de Norville, o supra referido relógio, o pêndulo de Newton na mesa de Mussberger, e as conversas entre Norville e Amy sobre o Karma. O destino, parecem dizer-nos os Coen, por mais aleatório que possa parecer, nunca é impensado. É uma postura menos cínica do que aquela que os viria a caracterizar em trabalhos futuros como Este País Não É Para Velhos (2007). Talvez por isso pareça inferior e sub-desenvolvida, quando equiparada às obras maiores da dupla de realizadores.

No fim, O Grande Salto é, talvez, a maior comédia dos Irmãos Coen. É pena é não ser a melhor.

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