Crítica: O Caso Spotlight

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Spotlight destruiu-me. Acalentou os cordelinhos do meu coração e puxou-os delicadamente, um a um, até me doer o canal lacrimal de tanto sentir o filme. Acho que é isso que o define: a capacidade de provocar emoções genuínas e intensas na audiência, sem recorrer ao melodramatismo manipulador que tanto caracteriza muito deste género de cinema, isto é, aquele que roça fortemente no espetro oscar bait da coisa.

Tom McCarthy, o realizador, cedo se apercebeu da necessidade de deixar a história falar por si, sem quaisquer tiques de realização que pudessem sobrepujar a importância narrativa do dito caso investigado pela equipa de repórteres “Spotlight”, do jornal The Boston Globe. A sua atitude é serena, madura e, acima de tudo, subtil. McCarthy resiste à tentação de exaltar os seus heróis, de os tornar em verdadeiros paladinos de Hollywood, mas sem lhes retirar todo o mérito e bravura de que são dignos.

Por mais simples que o filme possa parecer, acreditem que Spotlight é tudo menos isso. A maior parte das vezes é mais fácil brincar com a forma cinemática e explorar o lado “original” da arte sem pensar muito no resultado que vai ser lido pelo público. E o cinema só acaba no público, na audiência, em quem o lê. Tudo o resto é auteurism vazio.

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Pelo contrário, a simplicidade aparente de Spotlight brilha tanto por se aproximar das suas personagens e da importância história da sua narrativa, sem encandear o espetador com detalhes supérfluos, ou momentos desnecessários de grandiosidade heróica.

A cinematografia é quase invisível, exceto em momentos emocionalmente tocantes, nos quais a câmara reúne o elenco no enquadramento em posições banais mas sublimes, como se os pedaços mais benignos da humanidade estivessem ali representados naqueles meros mortais. A própria soundtrack também se aglutina delicadamente em momentos-chave da narrativa, sem pontuar em demasia a emoção das cenas em questão, que é veiculada naturalmente através das expressões e maneirismos dos atores.

E que atores estes. John Slattery é fantástico, Liev Schreiber conquista com a sua voz celestial e postura recatada, e o elenco principal constituído por McAdams, Ruffalo, Keaton e Brian d’Arcy James (talvez o elemento mais fraco do ensemble) inspira compaixão por todos os lados. Não há nenhuma competição forçada pela corrida aos galardões, nenhum movimento falso ou gesto exagerado com o intuito único de impressionar uma incauta audiência.

Assim, Spotlight reúne um conjunto de profissionais sem pretensões desnaturadas, que retratam a temática delicada do filme com uma voz adulta e tocante, informando e sensibilizando em igual medida, sem escorregar na poça infeliz do exagero melodramático. É cinema maduro para os que mais percebem, sem estragar a vontade lúdica de se apresentar a um público maior com o impacto emocional que este merece.

Cinema “simples” não é cinema fácil.

4 stars

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2 responses to “Crítica: O Caso Spotlight

  1. Este é possivelmente o meu favorito à corrida! Vi-o e revi-o com toda a atenção. A história é contada de forma calculada, reflectida e transporta-nos para o mundo empolgante do jornalismo de investigação quase que de forma oposta ao estado do jornalismo por terras lusas. As interpretações do Mark Ruffalo e do Michael Keaton deixaram-me agarrado à cadeira.
    Tudo é contado em detalhe, em tempo certo, sem falhas, sem melhorias a registar e aquela banda sonora memorável torna toda a experiência genial! Tal como a ti, saí destruído da sala (nas duas vezes) pela veracidade do tema e pelo enorme escândalo que representa, ainda por cima tendo em conta casos ocultados em Portugal que estiveram ao descoberto com o barulho todo que se fez mas que acabaram por ficar esquecidos. É nestas alturas que se vê a força de uma crença, por vezes descabida e desmedida, que nos impede de ver e reflectir sobre aquilo que vai contra o que acreditamos.
    Uma grande crítica mais uma vez!
    Abraço,
    Tiago

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