Irmãos Coen e História de Gangsters (1990)

Os Irmãos Coen são, talvez, a dupla de realizadores (e argumentistas) mais eficaz e prolífera dos últimos trinta (!!) anos, e também a menos apreciada. Os gajos são autênticos camaleões de género: pontapearam a carreira com um neo-noir subversivamente simbólico em Sangue por Sangue (1984) para o seguirem com uma comédia inana (Arizona Junior (1987)); mais recentemente realizaram a chef d’ouvre Este País Não É Para Velhos (2007), um western, e o drama musical pouco visto A Propósito de Llewyn Davis (2013).

Dentro de um mês vão lançar Salve, César! (2016), uma comédia ensemble de época com encenações musicais que promete ser candidato a um dos filmes do ano. Até lá, vamos realizar uma pequena retrospetiva de algumas das obras menos apreciadas e discutidas desta dupla genial de cineastas.

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Apesar da dança exímia e calculada entre géneros cinematográficos, os Irmãos Coen apoiam as suas transições em motivos recorrentes e atores que os acompanham nas diferentes fitas que realizam, o que torna os choques tonais mais simpáticos de absorver. No entanto, algo que é comum a todos os seus filmes, mesmo aqueles de tom mais ultra-sério, é o humor negro.

Não há filme dos Irmãos Coen sem gargalhadas macabras e situações sarcásticas que revoltam o espetador até ao âmago com terror e humor em igual medida. História de Gangsters não é excepção.

No filme, Tom Regan (Gabriel Byrne), um consigliere de um chefe de máfia na era da Proibição americana, tenta manter a paz entre dois grupos de gangsters em oposição. O seu patrão vê-se relutante em aniquilar Bernie Bernbaum (John Turturro, na sua primeira colaboração com os Coen) pois está apaixonado pela sua irmã, Verna (Marcia Gay Harden, toda ela femme fatale), e por isso despoleta a ira do seu opositor Johnny Caspar (Jon Polito).

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Os Coen tecem uma teia intrincada de personagens e alianças – verdadeiras e falsas – que servem mais à narrativa do que propriamente à audiência: após uma primeira hora imaculada, de motivações perceptíveis, traições poderosas, e set-pieces brutais, História de Gangsters perde-se no labirinto narrativo que criou para si mesmo, arrastando o protagonista Tom de grupo de criminosos para grupo de criminosos com um propósito atabalhoado tanto para ele como para o espetador.

É já uma espécie de conto tradicional entre cinéfilos o facto dos Coen terem sofrido de writer’s block na concepção deste guião, interrompendo a sua produção durante uma semanas para redigirem o que viria a ser Barton Fink (1991), a sua verdadeira primeira obra-prima. Barton Fink retrata, sem surpresas, um argumentista de Hollywood que sofre de writer’s block.

Este interregno de bastidores sente-se durante a segunda hora de História de Gangsters, que perde um pouco da construção magistral das prévias cenas. Por exemplo, no primeiro acto, há uma sequência em que uns assassinos a mando de Caspar tentam livrar-se do patrão de Tom, Leo O’Bannon (Albert Finney), enquanto este fuma um charuto sossegado. A cena propriamente dita começa com um travelling da câmara por um gramofone até à cama de Leo, servindo-se da música diegética para criar uma tensão divertida ao longo da sequência. Tudo o que se segue é caótico, violento mas, acima de tudo, perversamente humorístico, e não podemos deixar de querer repetir a cena assim que esta termina. É, porventura, o ponto alto do filme, e pouco do que se segue se equipara à genialidade burlesca desta sequência.

Felizmente, os Coen nunca perdem o fio à meada – mesmo que as suas personagens o façam -, inserindo elementos simbólicos aqui e ali (como as cortinas do quarto de Tom e, mais importante, o seu chapéu fugidio) que asseguram a audiência das intenções do filme e a guiam pelas partes menos cativantes da história. A cinematografia de Barry Sonnenfeld serve um propósito semelhante, acompanhando o enredo mirabolante dos Coen com reverente simplicidade. Sonnenfeld prefere os dias enevoados à noite noir comum a este tipo de filmes de crime, criando um ambiente melancólico que impregna História de Gangsters de uma maturidade cinematográfica que as fitas anteriores da dupla de cineastas não possuíam.

História de Gangsters, embora peque pela complexidade atabalhoada do seu enredo, não deixa de ser um must see da filmografia dos Coen, tanto pelas performances fantásticas da elegante troupe de atores reunida pelos realizadores, como pela construção impecável de algumas das cenas que enchem o filme de momentos de caos autêntico, como não se vê em mais lado nenhum.

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