Crítica: Brooklyn, clássico e encantador

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Acusar Brooklyn de simplicidade seria, em parte, ignorar todo o seu charme ingénuo.

Tudo nos é familiar no filme: as personagens, as localizações, as roupas, as situações; ou porque as vivemos (paixão e imigração são temas recorrentes nos dias que correm, principalmente por terras lusas), ou porque estamos acostumados a este tipo de conversa cinematográfica, que nos embala suavemente numa viagem emocional, resguardada mas intensa. Pode ser a perfeita escolha para a comum preguiça domingueira, mas não é redutivo da nossa parte ignorar esses pequenos prazeres?

John Crowley, o realizador, conhece de trás para a frente a história que tem nas mãos, mas não é por isso que se deixa recostar na cadeira de realizador e dirigir as cenas em modo automático. Sentimos uma cadência precisa de lugar para lugar; seguimos sem desvios a personagem de Eilis Lacey (pronunciado “ailix”, porque #irlanda) à medida que se afasta da família, se apaixona e desapaixona, em situações de emoção alteada, sem nunca entrarmos em catatonia aborrecida.

De facto, não se pode frisar o quanto Saoirse Ronan é responsável pela eficácia de Brooklyn. Podíamos reduzir a performance à sua transcendente beleza, que mesmo a rasgar pão hipnotiza o espetador, mas a verdade é que a atriz domina cada sílaba expelida pelos seus lábios, cada gesto que troca com os seus colegas em cena. Lemos micro-expressões no seu rosto como quem conversa normalmente no dia-a-dia, o impossível torna-se real: Eilis, através de Saoirse, existe mesmo, não é meramente uma personagem de um qualquer filme.

Não é por acaso que o ponto forte de Brooklyn são as suas personagens femininas: embora de personalidade clássica (não é como se o filme decorresse em 2016), cada uma das mulheres no ecrã são fortes e independentes à sua maneira, com as suas vontades particulares e defeitos frustrantes. Umas temem crescer e assumir responsabilidades (Emily Bett Rickards, a anos-luz da encantadora Felicity Smoak em Arrow), outras, como Eilis, sentem-se divididas entre o seu futuro e o seu passado; a Irlanda e, bem, Brooklyn.

Mesmo que o filme peque pela ausência de originalidade, desfruta de um espólio exemplar de personagens 100% concretizadas, e de uma realização modesta que se foca em conduzir o espetador sem enganos pela sua narrativa.

É este charme simplista que tanto cativa em Brooklyn; não é complicado perceber o porquê de estar nomeado para melhor filme nos Oscars deste ano.

3 stars

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