Crítica: O Renascido e um Urso chamado Bambi

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Estamos perante o mais recente milagre parido pela dupla que os deuses juntaram: Iñárritu/Lubezki. Ou pelo menos foi assim que mo venderam e, se ainda por cima atiramos Leonardo DiCaprio para a mistura, não há tendências ateístas que nos salvem. Traduzindo em miúdos, as expectativas para este filme não poderiam ser mais altas. A culpa de cair nessas cantigas de marketing cinematográfico é minha, a culpa do filme não ser uma obra-prima extraplanetária nem por isso.

O Renascido é claramente uma ode tripartida à magia da Disney. Começamos com o explorador aloirado que se apaixona por uma indígena de cabelos ao vento, que acaba por se tornar no caçador (comerciante de peles se preferirem) que mata a mãe dum urso chamado Bambi e chega a habitar as entranhas da sua própria montada para sobreviver às gélidas trevas de uma paisagem hostil (eu sei que todos queremos negar que a Disney comprou Star Wars, mas temos que enfrentar os factos). Hugh Glass é uma mescla de homem apaixonado, vilão sem escrúpulos e Jedi. Não, não é nada. Mas, já que chegaram tão longe neste absurdo, merecem uma opinião séria.

O Renascido é baseado numa história de vingança contada por Michael Punke no seu romance homónimo, que, por sua vez, é baseado na história do explorador Hugh Glass. Um conto que podia ter perdido algum sabor nesta mastigação repetitiva, mas afinal só saiu mais polido.

Os grandes momentos do filme são excelentes. São crus, brutais, explícitos e entusiasmantes. A cena do urso é tudo aquilo com que possam ter sonhado e mais ainda. A prestação de Leonardo DiCaprio na luta pela sobrevivência de Glass é tão intensa que se torna dolorosa para quem vê. Quando se arrasta, é como se sentíssemos cada repuxar nas suas costas (que entretanto viraram tartare); é como se estivéssemos a enregelar na neve também e trincássemos um bife de fígado absurdamente mal passado. A primeira sequência entra logo a prometer ação, dinamismo e grandiosidade. Só não cumpre realmente o prometido.

A verdade é que a narrativa, bem à semelhança do protagonista, arrasta-se pela maior parte do filme. As grandes cenas não eclipsam a excessiva duração da película. Excessiva porque a história não a justifica, excessiva porque Iñárritu e Lubezki se permitiram a uma série de imagens de fazer inveja a qualquer instagrammer, mas que falham em impulsionar a ação.

A iluminação conta a sua própria história. Fora e dentro da tela, os contos de luz natural desta empreitada já resumem o imaginário de O Renascido. Paisagens e cenários invejáveis ocupam todos os segundos do filme numa aura pseudo-artística, pseudo-indie, pseudo-genial. O trabalho de iluminação desta equipa é desconcertante, em parte por nunca termos passado por uma reabilitação do nosso vício de holofotes, em parte porque não está assim tão inacreditavelmente fenomenal. Não que não seja fenomenal, é. Mas, é um fenómeno em que não custa assim tanto acreditar.

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O que importa é que resulta e não deixa de ser uma nova maneira de fazer filmes (tenho a certeza de já ter ouvido essa expressão da boca do Leonardo DiCaprio em, pelo menos, duzentas entrevistas) e se há uma coisa que aprendi com o Barney Stinson é que novo é sempre melhor. Se não for pelo menos sempre é diferente e, sejamos francos, Hollywood já tem sede do diferente há muito.

As investidas de Iñárritu com a câmara são duvidosas, mas despertam curiosidade. Da descontinuidade dos pingos de água à jorrada de sangue perto do final, o que quer que se esteja a passar atinge a lente duma forma primitiva que não carece de algum encanto.

DiCaprio, Iñárritu e Lubezki, podiam formar a santíssima trindade dos westerns de nova geração, mas valem mais em quadrilha estilo anos 80. Já lá estava o líder com um plano espalhafatoso, o cinematógrafo magricela com um método para a sua loucura, o pentanomeado da cara laroca, só faltava mesmo o tipo ameaçador de feitio e penteado duvidosos (nunca pensaram que chegaria o dia em que alguém ia comparar o Tom Hardy ao B.A.? Think again). A-Team à parte, a verdade é que Tom Hardy dá luta a DiCaprio numa parceria admirável. Não encontram nem nos livros de biologia tão prodigioso exemplo de simbiose como este. Por mim, podem levar os prémios todos que quiserem daqui até aos Oscars.

Não podemos deixar de notar Domhnall Gleeson. O amuleto da temporada (desafio-vos a contar os filmes nomeados de que ele faz parte) é a mais desejada das personagens secundárias. Tem presença, mas não cobra o charme de um protagonista, e é o pavimento plano ideal que nenhuma personagem principal se importaria de pisar.

Em resumo, O Renascido é um filme espetacular que pede alguma paciência. Pode muito bem ser a melhor produção do último ano e se ganhar galardões que o indiquem não sobrarão injustiçados. É cru, brutal, deslumbrante e imperdível.

O eterno nomeado vai finalmente levar o Oscar para casa, um feito em que não se pode descurar a contribuição da falta de concorrência. Se esta profecia não se verificar, fica a certeza de que, graças ao filme, vivemos numa era em que “fazer figura de urso” equivale a dar umas cambalhotas com o Leonardo DiCaprio (certo?) e eu estou OK com isso.

4 stars

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2 responses to “Crítica: O Renascido e um Urso chamado Bambi

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