Opinião: #OscarsSoWhite (?)

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Tanto a polémica resultante das nomeações para a 88ª edição dos Oscars, como as “mudanças drásticas” implementadas na passada semana pelo presidente da Academia Cheryl Boone são um símbolo de como progredimos como sociedade nos últimos anos, mas também de como regredimos perigosamente para uma cosmovisão literalmente preta e branca da nossa sociedade (*).

Por um lado, passámos a apreciar mais a diversidade presente no nosso quotidiano, não só do outro lado da rua, mas também no grande ecrã; queremos a nossa realidade reflectida no cinema pois é nela que nos revemos, e no fundo, tudo o que queremos é rever-nos (nós mesmos, os nossos sonhos,  os nossos problemas) nas histórias que consumimos diariamente. Se a Academia não reflecte isso, porque há-de ser ela a avaliar a nossa arte de eleição?

Por outro, virámo-nos contra os nossos semelhantes, por um preconceito adquirido que só vai trazer mais conflito, tanto na Academia, como no nosso dia-a-dia. Falo como homem caucasiano, numa sociedade maioritariamente branca, que se revolta agressivamente contra um concelho eleitoral por não incluir mais diversidade nas suas considerações artísticas. Isso é bom, é positivo.

(*) Refiro isto porque, infelizmente, grande parte da conversa foca-se no quão foram ignoradas as performances e criatividade de muitos artistas pretos, quando a diversidade que tanto se almeja não lhes é particular. O Oscar Isaac também merecia uma nomeação pelo seu fantástico trabalho em Ex Machina (2015) (e há dois anos, em Inside Llewyn Davis (2013)), mas ninguém fala nisso. Ou o facto de o Iñarritu estar, efetivamente, entre os melhores realizadores quando o homem é tudo menos caucasiano.

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O que não é positivo é assumir, como metade das publicações que têm surgido nos últimos dias, que lá por o eleitor médio da Academia ser um homem caucasiano com 63 anos, essa mesma média é intrinsecamente racista. Não é. Essa média é um número, e se vamos avaliar o “racismo” por números, e vilipendiar aqueles que provavelmente participaram, criaram e representaram muitos dos filmes que ainda hoje apreciamos, só porque não elegeram pessoas de cor para os Oscars (**), estamos nós próprios a instaurar um novo tipo de racismo, pois estamos forçosamente a retirar posições de mérito a quem trabalhou para elas.

(**) Sem esquecer que a maior parte da Academia nem vê assim tantos filmes quanto isso para poder sequer ser acusada de propositdamente ignorar os melhores artistas, independentemente da cor da sua pele. As nomeações dos Oscars são, mais do que se pensa, fruto de campanhas milionárias de publicidade e dezenas de festas promocionais dos filmes em questão. Não há nenhuma agenda social por detrás delas; apenas uma agenda económica. 

A Academia bem que pode implementar o seu próprio tipo de ofensa institucional, e nós bem que podemos continuar a almejar um mundo mais diverso à custa dos nossos pares. Mas a verdade é que o verdadeiro problema encontra-se em quem rege Hollywood, quem dá a luz verde aos filmes em primeiro lugar. Encontra-se, também, nas campanhas publicitárias dessas supostas fitas, que influenciam mais a volátil mente dos eleitores do que propriamente a cor da pele dos ditos artistas.

E tudo se resume a uma simples verdade, já mencionada lá para trás: nós gostamos de nos rever no grande ecrã, a nós próprios e ao nosso mundo (***). A maior parte dos filmes que vemos hoje em dia (particulares a Hollywood, como os grandes blockbusters e a miríade de “oscar baits” que nos inundam a mente coletiva durante estes meses transitórios), são fruto da vontade dos manda-chuva em proliferar a sua própria cosmovisão – que, por lástima, está cada vez mais ultrapassada.

(***) Já se perguntaram porque é que Straight Outta Compton (2015) não estreou pelas salas nacionais?

A verdadeira mudança tem que ocorrer nos estratos superiores da indústria cinematográfica, e a verdade é que nós conseguimos influenciá-la de um modo, e de um modo só: com a carteira. Reclamar com os Oscars e com a Academia só porque são um sintoma do verdadeiro problema é retrógrado. Se queremos filmes mais diversos, é esses que temos que apoiar com o nosso dinheiro nas salas de cinema.

#OscarsSoWhite, apesar do nome, não é um problema tão preto e branco quanto parece. Quanto mais depressa nos apercebermos disso, educarmos as nossas opiniões e realmente agirmos perante as instituições (em vez de esperar que caiam as nomeações da “award season“), mais depressa conseguimos operar uma mudança numa instituição tão elitista quanto Hollywood.

Toca a fazê-lo.

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