Crítica: Um Presente do Passado

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Há filmes que conseguem arrepiar com meras palavras. Um murmúrio bem colocado, uma expressão aterrorizante, e pimba, a espinha arrepia-se num calafrio gigante que dura minutos. Afinal, por vezes o que mais nos incomoda não são ações mas sim palavras: o insulto dói mais que uma chapada na cara.

É nesta premissa que Um Presente do Passado encontra a sua força (The Gift, no seu original inglês, ganha pela ambiguidade nominal do mero “presente”) . Joel Edgerton (aqui guionista, realizador e ator; impecável em todos os ofícios) constrói uma narrativa melancólica e positivamente arrastada, que se delonga na apresentação das personagens sem aborrecer a audiência. O enredo desenrola-se cautelosamente até o conflito principal se mostrar claro, preocupando-se com a dinâmica das personagens e o seu passado partilhado até soltar o clímax desenfreado num espetador incauto com a fúria de um Jack Nicholson no set do The Shining (1980).

Todos os protagonistas dão o máximo de si na representação: o já referido Edgerton, mas também Jason Bateman, mais conhecido por papéis cómicos em filmes como  Chefes Intragáveis (2011), demonstra-se perfeitamente capaz neste papel mais dramático como o beato fingido Simon Callum.

No entanto, a verdadeira revelação do filme é Rebecca Hall como Robyn Callum. Hall carrega cenas solitárias durante minutos, enfrentando a condição humana de olhos arregalados e uma tristeza desmesurada na manga, veiculando mais emoção sem palavras do que muitos conseguem em 5000 caracteres. As cenas que partilha com Edgerton são um regalo: ambos sofridos por condições externas que os tornam pássaros numa gaiola, sem onde para fugir, sem ninguém com quem repartir a sua dor.

O mais impressionante em Um Presente do Passado, sendo o filme a primeira longa-metragem de Edgerton, é o quão este contém a sua fúria: um filme menos maduro resolveria todos os conflitos com violência desabrida e sangue em catadupa, mas não Edgerton; o realizador e argumentista prefere o silêncio e as ações mais contidas para explicar o frémito interior das suas personagens.

Simultaneamente calmo e frenético, Um Presente do Passado representa um excelente debut de Edgerton atrás da câmara e de caneta na mão, que respeita a inteligência da audiência ao mesmo tempo que a choca e entretém com as ações dos seus protagonistas. Não percam.

3 stars

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