Crítica: Creed é um K.O. Autêntico

Nunca vi Rocky, nem o original de 1976, nem as suas abundantes sequelas. No entanto, conheço de coração as famosas sequências de treino que catapultaram para o estrelato músicas como “Gonna Fly Now” e “Eye of the Tiger“. Sei-as de tal forma que sempre parti do princípio que tais montagens musicais eram integrais à saga, não só como recurso estético, mas também como aprofundamento emocional dos protagonistas; tudo de uma forma intrinsecamente musical.

No entanto, todos os momentos musicais de Creed me passaram ao lado: é como se a sua soundtrack não tivesse existido sequer. Minto; recordo-me do concerto de Bianca (Tessa Thompson, a próxima big thing de Hollywood) graças ao seu ar distintamente eletrónico e moderno. Tudo o resto voou debaixo do radar, por assim dizer.

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Felizmente, Creed é mais que a soma das suas partes. Tem um protagonista carismático em Adonis Creed (Michael B. Jordan, que prova ser um ator talentoso quando não é desperdiçado em bostas comerciais como Fant4stic), um elenco secundário fabuloso (a já referida Thompson, Wood Harris e mesmo o precipitado Tony Bellew), e uma realização digna de Oscar por parte do noviço Ryan Coogler.

Coogler saca de Stallone a sua melhor performance em anos; o Rocky original mostra-se capaz de partilhar o ecrã sem se perder no meio das estrelas mais novas, ao mesmo tempo que eleva os momentos dramáticos com autenticidade invejável. Para além disso, o realizador injeta as cenas mais paradas com um dinamismo apaixonado, aproveitando corredores e espelhos para enquadrar as suas personagens com um olho artístico pouco comum neste tipo de dramas.

Mas o que mais impressiona na direção de câmara de Coogler é o seu uso magnânimo de takes longos e tracking shots complexas que nos forçam o ponto de vista determinado de Adonis Creed sem aborrecer por demasia. De salientar o segundo combate do filme, comprido, sem cortes, e absolutamente brutal. Sentimos cada pancada, cada queda no ringue, cada pausa entre rounds como se estivéssemos lá. Não é um truque simples nem é um truque invisível: é apenas a escolha inspirada de um realizador que sabe introduzir num franchise ultrapassado o seu toque moderno sem parecer forçado.

Creed carrega o seu coração na manga, e nota-se que tantos os atores como a equipa técnica se esforçaram ao máximo por reintroduzir o ideário clássico de Rocky às massas. Enérgico e determinado, Creed destaca-se das restantes sequelas/reboots de franchises dormentes por respeitar as suas origens ao mesmo tempo que olha para o futuro.

Ainda há esperança para a indústria da reciclagem cinemática em Hollywood.3 stars

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