Crítica: Star Wars e a Força Desperta

098243Isto não é uma crítica: é uma carta de amor.

Por mais que queira apontar todos os defeitos que este sétimo episódio de Star Wars tem (e ainda são bastantes), há algo mais que é preciso sublinhar, algo visceral, aquela qualidade inquantificável que acompanha os melhores filmes (sejam eles de autor ou blockbusters desenvergonhados) e que te enche o sorriso durante duas horas – e todas as outras que passarás a falar sobre eles.

Quando foi anunciado, Star Wars VII: A Força Desperta tinha uma tarefa colossal à sua frente: apaziguar os fãs desapontados (desapontado é uma palavra muito fraca para quem sentiu o coração colapsar após os três filmes desastrosos de George Lucas) com as prequelas, recuperar o espírito original da primeira trilogia (algo impossível, ’77 já lá vai), e proporcionar um novo futuro para o multimilionário franchise.

Porque sejamos honestos: não há um “tipo” de fãs de Star Wars; há imensos. Agora existem três gerações diferentes, três audiências distintas, que tiveram a possibilidade de assistir às ditas guerras estrelares no grande ecrã, e nenhuma delas partilha da mesma cosmovisão cultural ou social; são quase 40 anos de estreias e conversas que criaram diferentes espetadores e tantas outras expetativas.

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Portanto é óbvio que esta versão simultaneamente reciclada e rejuvenescida de J.J. Abrams nunca iria agradar a toda a gente. Não iria agradar aqueles à espera de algo 100% original; não iria agradar os que gostaram a todo o gás das prequelas; não iria agradar a quem só acha a trilogia original perfeita; e certamente não iria agradar aqueles que nunca gostaram de Star Wars em primeiro lugar.

O tempo para a dissecação sobre-analítica de A Força Desperta arrancou assim que este estreou, ao contrário do que costuma acontecer com filmes igualmente bem sucedidos. O espetador comum não teve tempo para respirar a alegria de abandonar a sala sem ouvir um queixume mesquinho, seja ao sair do cinema, seja em casa a fazer scroll na feed o Facebook.

Em artigos negativos como alguns do jornal Público, os fãs reuniram as armas e protestaram contra a atitude elitista e sobranceira que acompanha muita da crítica profissional; em opiniões positivas como a do Nuno Markl, os desapontados fizeram a sua voz ouvir com vitupérios dirigidos ao consagrado humorista português, como se o deleite do homem fosse algum tipo de ofensa íntima. “É por isso que nunca podes ser um crítico de jeito, Markl”, dizia um dos comentários.

Que se foda isso. A Força Desperta tem muitos problemas: é derivativo e funciona quase como um remake do primeiro filme; tem uma série de plot holes ainda por justificar (não esqueçamos que isto é o primeiro episódio de uma nova trilogia); existem bastantes saltos lógicos no que toca às interações entre algumas personagens, assim como algumas relações subexploradas por conveniência inexplicável. A Força Desperta é do início ao fim um filme de J. J. Abrams – ação espetacular, personagens diversificadas e tridimensionais; mas não consegue resistir a uma análise mais aprofundada da sua narrativa.

A quem isso importar, aí o têm. Mas A Força Desperta é também o raro filme que consegue esconder os seus problemas através da simples e muito esquecida (principalmente pela própria crítica especializada) magia do cinema. O seu legado só vai ser devidamente compreendido quando as crianças que assistiram pela primeira vez a uma heroína irrepreensível como Rey crescerem para a aclamar como digna do panteão dos maiores e melhores heróis do cinema, lá em cima junto a Luke, Leia e Han.

Ninguém precisa de filmes perfeitos quando tem Star Wars.

4 stars

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