J.J. Abrams e Star Trek Into Darkness (2013)

76642A sequência inicial de Star Trek Into Darkness é gloriosa. Em cinco minutos, somos apresentados a um vibrante planeta alienígena, a uma cultura distinta e exótica. É uma sequência empolgante porque finalmente encontramos a tripulação da Enterprise a explorar mundos extraterrestres, numa missão de salvamento que nos é imediatamente relacionável.

Abrams traz um sentido de urgência non-stop a estas cenas que, num blockbuster de verão, acaba por sempre por aborrecer, mas aqui é só energizante: todas as personagens têm algo para fazer, as suas interações saltam do ecrã, sentimos que aqueles exploradores espaciais têm verdadeiras relações emocionais capazes de nos cativar.

Isto tudo sem grandes demoras. Abrams pontapeia-nos para o meio da ação, delongando-se nas vistas maravilhosas, nas expressões extraterrestres da tribo nativa daquele planeta prestes a explodir. Somos capazes de entender tudo, de absorver tudo, e ao mesmo tempo não nos perdemos dos nossos protagonistas, prontos a se sacrificarem para o bem maior.

Repito, a sequência inicial de Star Trek Into Darkness é gloriosa.

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Então tiram a Kirk o seu brinquedo, separam-no dos seus compinchas, e John Harrison aparece caído do céu. Desculpem, “Khan”, cai do céu, a sua identidade verdadeira escondida pelo próprio realizador, na tentativa atabalhoada de fascinar a audiência com um daqueles twists guardados na manga até ao último momento – mas falha redondamente.

Into Darkness é uma confusão. A primeira metade do filme não tem nada que ver com a segunda metade, o guião anda para trás e para a frente à procura de um foco narrativo que não existe (*): a Enterprise é do Kirk, depois não é do Kirk, cinco minutos depois: oh!, é do Kirk outra vez. As personagens são tratadas como metafóricas bolas de ping pong. Apenas a relação de Kirk e Spock é salva pelos momentos de química fraterna que Chris Pine e Zachary Quinto veiculam através do ecrã (a escolha de casting é, talvez, o aspeto mais bem conseguido da realização de J. J. Abrams).

A personagem de Zoe Saldana é esquecida após o seu conflito inicial estar resolvido – o que é uma pena, porque um ano depois mostrou aquilo que consegue fazer quando lhe dão um papel de real textura  (ver: Guardiões da Galáxia (2014)). As personagens femininas parecem ser pouco mais que eye candy neste filme, ao contrário do primeiro, que se deu ao esforço de pelo menos incluir Zoe na ação principal.

(*) O pior disto tudo é que retornamos ao problema do primeiro filme: a maioria dos confrontos dão-se no aborrecido planeta terra, em sequências que parecem saídas de outro blockbuster que não um de ficção científica.

Basta olhar para a forma como a câmara trata a Drª. Carol Marcus (Alice Eve, mal aproveitada): segue as suas curvas até ao momento em que se despe, e em vez de ser bem educada como todos sabemos Kirk não ser, mira-a em todo o seu esplendor semi-nu. É uma imagem controversa porque choca com o restante tom “leve mas sério” do filme, ao introduzir uma veia sexual indiscutivelmente masculina que não serve a narrativa de forma nenhuma para além de apaziguar os mais pré-históricos produtores.

Felizmente, nem tudo é mau. Apesar de Khan ser um vilão sem pés nem cabeça, Benedict Cumberbatch confere à personagem todo o seu carisma apaixonado. O ator aproveita ao máximo a sua primeira saga espacial para brincar um pouco com a seriedade ridícula da saga, seja num flirt muito pouco inocente com Kirk, ou com a violência desabrida nas suas ações durante o clímax de Into Darkness; Khan é uma desgraça, mas Cumberbatch é o seu oposto.

No fim, Abrams não aproveita o mosaico interplanetário e alienígena que Star Trek lhe permite, e então dá-nos uma aventura de ação pouco convincente, ou sequer memorável. Resta esperar que o próximo seja melhor.

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