A dor de ver The Leftovers

The Leftovers é uma das únicas séries que sinto com todo o meu coração. Pá, é pieguice minha, é, mas não consigo deixar de sentir pózinhos no canto do olho sempre que um episódio acaba; não consigo evitar gastar um pacote de lenços todas as semanas após seguir os Garveys e os Murphys por outro novelo emocional como um amigo íntimo (embora invisível).

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As melhores séries televisivas, aliás, as melhores histórias (*) são aquelas que funcionam como um espelho das nossas vidas, nas quais nos poderíamos enfiar sem causar um distúrbio na Força. Vivemos as personagens dessas narrativas porque nos identificamos com elas, porque nós próprios somos, ou já fomos, ou conhecemos intimamente, essas pessoas. São de tal modo indissociáveis da nossa  existência oh-tão-específica que nos perdemos nelas como num qualquer arrufo romântico. De certo modo, elas são um romance, e um romance, por vezes, dói.

(*) Pelo menos de um ponto de vista emocional, já que sentimos de forma tão mais exagerada tudo aquilo que nos é particular e relativo às nossas próprias experiências como seres humanos. Não é por isso que deixamos de amar tantas outras histórias muito distantes da nossa realidade.

E eu sinto The Leftovers; sinto em demasia, até. Sinto o poço depressivo para o qual Kevin Garvey se atira inconscientemente, sinto a culpa sufocante que aterroriza Nora Durst no seu dia-a-dia, e sinto o aborrecimento existencial da Jill Garvey como se fosse eu próprio a viver num planeta em que 2% da população mundial desapareceu da face da Terra sem explicação.

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Talvez tal envergadura emocional possa alienar o público que mais retiraria da série (**), e a aderência a mistérios pseudo-supernaturais limita ainda mais a sua potencial audiência. É impossível apanhar The Leftovers a meio e entender o que quer que seja: muitas das vezes, até o espetador mais assíduo se perde na estrutura labiríntica da série.

(**) Nem nos Estados Unidos, paraíso da cultura de nicho, The Leftovers encontrou um público alargado. Felizmente a HBO renovou-a para uma terceira temporada; infelizmente, será a última. 

A segunda temporada, em particular, redefiniu aquilo que uma temporada de televisão pode englobar, tanto a um nível narrativo e estrutural, como a um nível particular e emocional.

De semana a semana seguimos um conjunto diferente de personagens, experimentando emoções distintas sempre que as víamos no ecrã: a introdutória família dos Murphys, aparentemente ordinária e unida; os Garvey, quebrados mas determinados a ultrapassar o seu trauma; Matt Jamison (Christopher Eccleston, a nu como nunca antes), à procura de um Deus que não existe; e Meg Abbott (Liv Tyler, de rédea solta), a anarquista religiosa que destrói tudo o que toca.

Meg encapsula tudo aquilo que faz The Leftovers especial: no início uma simples mulher sem rumo, agora a inequívoca vilã da série. E quando digo vilã não penso numa bruxa má sem profundidade, mas sim numa amoral humana que procura o prazer em arruinar a paz familiar dos outros, de uma forma tão simples quanto lançar uma granada falsa para dentro um autocarro cheio de crianças. Liv Tyler é uma revelação no papel, algo impressionante tendo em conta que aparece em pouco mais de dois episódios.

Desde as performances à cinematografia, à escolha musical (com outro uso exemplar da icónica “Where is My Mind?”, depois de surgir de forma desoladora em Mr. Robot) até à bombástica cena inicial (os 10 minutos mais what the fuck deste ano, sem dúvida), a segunda temporada de The Leftovers foi uma autêntica revelação após um primeiro ano turbulento.

É pena é que ninguém tenha estado lá para ver.

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