J.J. Abrams e Super 8 (2011)

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Super 8 é masturbação e nostalgia. Abrams, o realizador, tenta ser Spielberg e falha redondamente porque não encontra o coração na narrativa do filme, ou sequer nas suas personagens. Abrams atira crianças para o meio da história na tentativa de recriar o espírito jovial de Spielberg, mas só consegue criar o esqueleto do que são, efetivamente, os seres humanos concretizados que tornaram obras-primas os melhores filmes do realizador americano.

Super 8 tenta a sua sorte ao abraçar o ar inocente e care-free do cinema nos anos ’70 e ’80, mas falha porque, apesar da sua produção de época, vive irremediavelmente numa idade moderna, mais cínica. Isto é, tão moderno quanto 2011 foi; quatro anos parecem uma eternidade quando olhamos para os efeitos especiais pouco convincentes de Super 8.

No entanto, o filme tem as suas qualidades: os atores estão todos a trabalhar com o seu A-Game, Elle Fanning principalmente. Fanning rouba todas as cenas em que aparece, seja com o restante elenco infantil, seja com os mais adultos. Nem o fantástico Kyle Chandler consegue cativar quando partilha o ecrã com Fanning; a rapariga domina a atenção do espetador com o carisma de uma super-estrela. Não tem feito muita coisa decente desde aí, mas promete arrebatar de novo com o próximo filme do Refn, The Neon Demon, já em 2016.

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Futurologia à parte, Super 8 destaca-se no currículo de J. J. Abrams por ser a sua primeira-longa metragem cem porcento original. Tanto Missão Impossível 3, como Star Trek (1 e 2), e mesmo o próximo Star Wars são entradas em franchises previamente estabelecidos, colossos de bilheteira que caíram em degredo com sequelas (e prequelas) menos felizes, para não dizer absolutamente terríveis. O toque de Abrams nestes filmes foi como o de Midas: tornou merda em ouro, revitalizou as sagas com um toque comercial e abrangente, sem perder o ar de entretenimento desafiante que tanto as massas como os críticos adoram.

Infelizmente, Super 8 não tem nada disso. Nota-se a paixão de Abrams pelo género, mas o filme não passa de um espectro medíocre dos grandes épicos sci-fi de outrora. Em vez de escrever uma carta de amor com uma significância contemporânea, Abrams limita-se a explorar o seu subconsciente infantil, sem nele encontrar nada de novo para mostrar ou para dizer.

A primeira metade de Super 8 até engana: no início, as crianças parecem ter um arco narrativo claro, a sua dinâmica é interessante, e o desfasamento entre a criatividade infantil e a resignação adulta é um poço temático profundo e interessante. Mas então descarrila o comboio (literalmente), e o filme perde-se na ação desenfreada da narrativa, cuspindo militares e monstros e conspirações governamentais que nem bifes num talho, à espera que colem.

Spoiler alert: não colam. O estilo de Abrams entrega-se bem a argumentos bem escritos e cheios de ação, não a reflexões nostálgicas sem rumo. Esperemos que Super 8 tenha sido um solavanco na carreira de outro modo excelente deste visionário senhor.

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