Crítica: Montanha e a selva urbana

O melhor de Montanha é aquilo que acontece fora do ecrã. João Salaviza, o realizador, podia-nos mostrar os últimos momentos do avô de David no hospital, podia-nos mostrar a masturbação implícita entre o protagonista e Paulinha, e também nos podia mostrar o assalto do ínfame motociclo, mas opta por deixar tudo isso na orla do enquadramento, como que perdido na imaginação do espetador.

Não que Montanha precise de ajuda em cravar as suas imagens na mente da audiência: Salaviza – junto com o seu diretor de fotografia de eleição, Vasco Viana – constrói uma série de planos fascinantes, estáticos e lânguidos, nos quais a ação se demora pela preguiça das personagens, ou pela simples morosidade da sua existência. A iluminação de estilo chiaroscuro faz lembrar quadros do Caravaggio. O David (personagem e ator) de Montanha não corta a cabeça a nenhum Golias, mas de certa forma é obrigado a enfrentar um mundo tão aterrador quanto o enorme humanóide da lenda.

Como nas curtas anteriores de Salaviza, começamos o filme dentro da habitação do protagonista, que então se lança para a selva urbana lisboeta como um qualquer herói épico à procura da sua aventura. Não a encontra: as cenas de Montanha funcionam como pequenas vinhetas íntimas da vida de David.

756556O espetro da morte do seu avô paira nos ombros do nosso protagonista. A sua mãe vive em Londres, separada de um pai inconstante (Carloto Cotta), mas volta a Portugal por causa da doença do avô. Cotta entra em apenas uma cena, mas é o suficiente para cimentar a sua posição como um dos melhores atores de cinema a trabalhar em terras lusas na atualidade. Nesse momento, um misto de ameaça e paixão enche a sala que partilha com David, e a violência com que o agarra parece de igual modo amorosa e brutal. Os pais de David (emprestados, ou não) prometem-lhe com palavras e efémeros gestos uma melhor vida, quiçá amor de mãe e pai que só no avô encontra. Mas todos sabemos que nunca lho darão.

Como em Arena (2009), circunstâncias externas forçam um certo aborrecimento existencial no nosso protagonista. David não vai às aulas, não joga à bola. Dorme até tarde, sem razão para abandonar os confortáveis lençóis. Sai de dia para cuspir na auto-estrada labiríntica de Lisboa, sai de noite sem rumo à procura de Paulinha em concertos.

Estas avenidas musicais são-nos mostradas sem grande alvoroço; um foco de luz enche a cara de David, e os restantes corpos perdem-se na penumbra intercambiável do concerto. De olhos fechados e corpos suados parecem zombies esfomeados: uma maré de jovens de futuro incerto.

A viagem emocional de David é semelhante à de tantos outros jovens masculinos do género coming-of-age: vemos no rapaz português um pouco da rebeldia de Antoine Doinel, e o próprio Salaviza deve muito a O Sangue (1989) de Pedro Costa. A verdade é que Montanha não contribui de nenhuma forma para a evolução do género, nem com as suas personagens, nem com a sua temática, e para cinéfilos experimentados (certamente o público-alvo deste filme) pode não ser mais que um exercício em estilo por parte do jovem realizador.

Mas Montanha é o feliz culminar de todas as curtas-metragens de Salaviza, desde as suas inclinações visuais até à falsa adolescência pela qual passam todos os seus protagonistas. Mais do que por vontade, Salaviza necessitava de realizar este filme, de contar a história deste David, para encerrar não só a história das suas personagens mas também a sua própria juventude. Aos 30 anos, o realizador encontra o ponto perfeito para refletir a sua geração no grande ecrã.

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