J. J. Abrams e Star Trek (2009)

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Tenho alguns problemas com este reboot do universo Star Trek (*). Se há algo que as óperas espaciais deste género de blockbusters multimilionários conseguem fazer, é criar mundos alienígenas, raças extraterrestres que nos capturem a imaginação e nos alimentem os sonhos durante meses a fio. Droids com personalidade como o R2-D2 e o C-3PO fazem parte da nossa cultura pop por alguma razão.

Nem é preciso falar de Star Wars e do seu incomparável worldbuilding; um filme medíocre como John Carter (2012) tem um carisma alheio a este mundo mais transcendente do que o tom vernacular e mundano de Star Trek. O tempo passado no espaço é literalmente no espaço, dentro de naves enormes e labirínticas que nunca chegamos realmente a conhecer, e quando finalmente pousamos num planeta esse planeta é o velho e ordinário planeta Terra (ou Vulcan, que é de tal forma semelhante que não conta).

(*) Nunca vi os originais, nem a série que os criou. Sempre acompanhei de um ponto de vista afastado toda a guerra dos trekkies com os fãs de Star Wars, acumulando conhecimento acerca desse universo graças às inúmeras referências que se imiscuíam em séries de animação como Os SimpsonsFamily Guy.  Detalhes como Captain Kirk, “beam me up Scotty!”, a linguagem dos Klingons, e os homónimos monstros de testas anormais sempre me chegaram em segunda mão, como uma qualquer lenda de folclore. 

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Sabe a pouco, é o que eu quero dizer. O filme são duas horas de prelúdio a uma história infinitamente mais entusiasmante do que aquela que nos estão a contar, e isso sente-se sempre que passamos mais de quinze minutos na Starship Enterprise.

Não que o tempo passado na nave protagonista de Star Trek seja aborrecido, longe disso: J. J. Abrams tem a capacidade de tornar as inúmeras discussões abordo da panela espacial cativantes e dinâmicas, filmando o back-and-forth entre Kirk (Chris Pine) e Spock (Zachary Quinto) como uma subversiva comédia romântica.

Mas a realização de Abrams é uma âncora, o suporte sólido que carrega o filme sem realmente o tornar algo de especial. Lens-flares à parte, o estilo de Star Trek é de fácil digestão, como tantos outros blockbusters americanos, sem brilhar em nenhuma instância particular.

No entanto, ao contrário da ralé infeliz que normalmente chega às salas de cinema, Star Trek reúne um elenco fantástico de personagens, e o argumento de Roberto Orci e Alex Kurtzman alongam-se o tempo suficiente em cada uma delas para as tornar especiais aos olhos da audiência. O conflito principal entre Spock e Kirk é fantástico neste aspeto, pois apesar da sua simplicidade, estabelece de imediato uma conexão emocional com a qual nos podemos relacionar, acompanhando o seu crescimento ao longo do filme de olhos arregalados.

O que falta ao filme em maravilha alienígena, ele ganha em emoção real. Sorrimos a torto e a direito com as pantominas de Scotty (Simon Pegg é tipo o vinho do Porto, só melhora com a idade), sentimos o nervosismo ansioso de Chekov ao falar para a tripulação da Enterprise, e temos o nosso canal lacrimal a funcionar sempre que Spock é maltratado pelos seus pares por simplesmente não os compreender, como tantos de nós meros humanos.

Se calhar o meu problema é esperar a criatividade vibrante de Star Wars no universo de Star Trek, e por isso ficar desiludido com a relativa simplicidade terráquea deste último. Não é por isso que deixa de ser um bom filme, um filme espectacular, emocionante, e extremamente memorável pelo grau de entretenimento que as suas personagens possibilitam.

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