Crítica: Steve Jobs é o dono do mundo

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Seria fácil glorificar um homem que foi facilmente uma superstar em vida, não só pelos seus engenhos tecnológicos, mas também pelo seu carisma incomparável, particularmente durante as suas inúmeras apresentações ao longo dos anos.

Seria fácil, principalmente porque estamos a falar de uma biopic, e as biopics tendem a cair para o facilitismo do oscar bait, um género de cinema americano por si só, com dividendos muitas vezes negativos por estar tão focado na performance vazia das suas estrelas (*).

Steve Jobs, por outro lado, opta por demonizar as suas personagens, analisando-as de uma forma compulsivamente crítica, sem se esquecer do quão fascinantes elas são. Aliás, é essa dualidade que torna o filme cativante: apesar do ego tirânico de Jobs, a audiência não o consegue deixar de seguir com atenção, derrota atrás de derrota, até à sua inevitável vitória.

(*) As narrativas destas biopics raramente são satisfatórias a um nível emocional; quedam-se pelo discorrer enciclopédico de “momentos importantes” da vida dos seus protagonistas sem qualquer dramatismo. O infeliz Black Mass (2015) é um exemplo recente: uma biopic que nos mostra uma série de eventos consecutivos ao invés de uma história coerente. 

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Fassbender é sensacional no papel, misturando os jeitos icónicos do magnata americano com o seu estilo peculiar de representação, mas é Kate Winslet quem lhe rouba o farolete. De perucas e vestidos comedidos, Winslet encarna com ardor uma personagem cujo nome até aqui muitos nem sequer teriam ouvido. Steve Wozniak e Jobs podem andar às turras como as grandes celebridades desta peça biográfica, mas é a Joanna Hoffman de Winslet que enche o núcleo emocional do filme.

Escrito por Aaron Sorkin (A Rede Social (2010)), Steve Jobs decorre a um ritmo estonteante, saltando de cena para cena sem nenhum ponto morto ou momento mais arrastado. O diálogo balístico de Sorkin é cheio de tensão, e o guião está repleto de situações que se constroem através de discussões bruscas e violentas. No entanto, o argumentista não se esquece do poder do humor, empregando os seus característicos one-linerszingers para esvaziar a tensão de cenas sempre à beira de rebentar com ela.

Sorkin domina a construção de cenas e diálogos, mas também impinge uma estrutura pouco convencional ao enredo, que de outro modo se limitaria ao relato pontual da vida de Jobs. Em vez disso, seguimos o polarizante homem (e a sua equipa) nos bastidores de três das suas mais importantes apresentações de mercado. Assistimos às discussões, às epifanias de Jobs e, acima de tudo, à sua envolvente relação com a filha, Lisa.

A personagem principal de Steve Jobs é sem dúvida o seu argumento, pelo que a escolha de ter Danny Boyle (Trainspotting (1996)) a realizar sempre foi um pouco suspeita. O realizador britânico é conhecido pelo seu virtuosismo visual, pela sua mania altamente estilizada, quase esquizofrénica, de representar a psique das personagens através do ecrã. Felizmente, deixa as suas tendências mais extravagantes no assento do pendura, dirigindo o filme com impecável nuance.

Apesar de tudo isto, o que mais impressiona em Steve Jobs é o quão emocionante é. Nenhum filme com 90% de conversa fiada devia ser tão entusiasmante, e no entanto aqui temos a prova de tal anormalidade. Definitivamente um dos melhores do ano.

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