Nunca Odeies Um Filme

5236556867

Nunca odeies um filme. Podes odiar ter gasto seis euros e meio num pedaço de merda qualquer no cinema, mas não odeies esse pedaço de merda. Podes odiar a tarde que desperdiçaste a ver outras três horas de robôs a destruírem-se mutuamente, mas não odeies o filme com os robôs a destruírem-se mutuamente. Para quê odiar um filme?

Somos uma cultura extremamente binária, que só consegue amar ou odiar qualquer coisa com falsa efervescência, como se não existisse um meio termo. As nossas conversas são mais monólogos a dois em que defendemos o nosso particular ponto de vista sem absorver o que nos é dito de volta, porque não queremos ver a nossa cosmovisão questionada por quem não nos entende. Podemos simplesmente “respeitar opiniões”, mas será que isso contribui para uma boa discussão acerca do cinema? Acerca da arte?

Quer dizer, que se foda a arte. No geral, preocupamo-nos com os nossos gostos, com as nossas vontades, e de que forma o nosso escasso (ou, em contrapartida, demasiado) tempo livre é ocupado com os nossos hobbies cinemáticos, sem querer saber de como eles servem para formar um melhor entendimento do cinema como arte. A “arte” não interessa, o que interessa é como nos sentimos em relação a ela.

Pensar custa, e por vezes é mais fácil atribuir um número arbitrário de uma escala de um a dez (com todas as casas decimais pelo meio) do que realmente refletir acerca daquilo que nos tocou no filme. Interessa mais se o peão no Inception (2010) continuou a rodar ou não do que as implicações existenciais que dele podemos retirar. Interessa mais discutir o combate final dos dinossauros de Mundo Jurássico (2015) do que a forma casualmente misógina com que o filme mais bem sucedido do ano trata as suas personagens femininas.

64743784

Não há meio termo. As camadas de cinzento que cobrem o branco e o preto são inexistentes nas nossas discussões, e tudo porque somos condicionados a pensar em números, letras, ou estrelas como verdadeiros quantificadores objetivos de um filme. O que é que, na verdade, são 5 estrelas? Ou 8/10? O que é que é um B+, e o que o distingue de um C-, ou de um F?

Sites como o Rotten Tomatoes impingem na audiência uma média séria de um número de críticos e espetadores com os seus próprios meios de qualificarem um filme, que muitas vezes são completos opostos. O meu 3 pode ser diferente do teu 3, no entanto aprendemos a lê-los de igual forma. Muitas vezes dou um salto às críticas do Público e revolto-me com a quantidade de duas estrelas que oferecem a bons filmes naquele jornal, para depois ler a legenda e descobrir (vez atrás de vez) que para aqueles críticos, duas estrelas equivale a um filme razoável. Em que mundo é que duas estrelas equivalem a um filme razoável? E o que é que esse “razoável” quer dizer? Vale a pena gastar 6 euros nele, esperar que saia em DVD e gastar uns 10€? Pirateá-lo, ou não o ver de todo?

É errado quantificar uma peça de arte de que forma for; todos o fazemos de maneiras diferentes o suficiente para serem opacas para os demais. Esses star-systems despoletam muitas vezes reações polarizantes de ódio ou amor que não nos ajudam de nenhuma forma a perceber o quão realmente bom é um filme, ou de que forma cada um nós o pode apreciar particularmente.

Afinal de contas, não somos nenhumas marionetas; podemos gostar do dramatismo meloso do Titanic (1997) ao mesmo tempo que repetimos outra nauseabunda sessão do Anticristo (2009). Ou então não, e amar apenas os dropkicks impossíveis do Jackie Chan ou do Van Damme para o resto da nossa vida. A escolha está lá, a variedade existe, e o interesse em cinema reside em apreciar esta abrangente escolha daquilo que nos puxa os cordelinhos das emoções.

5325665475

Portanto, nunca odeies um filme. Já dizia o Tarantino: “não te vai ajudar em nada, e é um desperdício de tempo.” Claro que existem bastantes razões, inumeráveis até, para não gostar dum filme. Mas odiá-lo? “Deixar que isso nos aborreça”? Não é suposto aborrecermo-nos no cinema. Não é suposto desperdiçar as nossas energias a armazenar a bílis no nosso estômago por algo ser “menos bom”.

Esta reflexão tem a sua origem no behind the scenes do último Hobbitque justifica, da forma mais sincera e in your face que já vi, o porquê da nova trilogia da Terra Média ser tão… terrível. Peter Jackson surge sempre de mão na testa, o cabelo a cair-lhe para os olhos em desgraça. A equipa queixa-se a torto e a direito de todos os problemas de produção que ocorreram, nomeadamente a falta de tempo, e a consequente ausência de direção do próprio realizador.

O estúdio impingiu uma timetable impossível de cumprir, e o que obtivemos foi a melhor versão possível do filme que foi feito. Buracos de rodagem foram preenchidos por CGI gore, e o argumento cru nem sequer foi revisto as vezes necessárias para criar algo coerente. Ninguém está contente com a versão final, e no entanto nós, a audiência, sentimo-nos no direito de cuspir em cima de todo o trabalho duro daqueles artistas (ninguém pode acusar Peter Jackson de ser um mau cineasta) porque não gostámos do filme. Em que é que isso ajuda? E de que forma é que reagimos quando aparece alguém que encontra genuíno entusiasmo ao ver o que, para nós, é mediocridade? Duas estrelas, não interessa o que tu pensas.

Odiar filmes fecha-nos em caixas detestáveis que nos proíbem de sequer ver aquilo que “sabemos” odiar. Limitam as nossas escolhas como as palas de um burro lhe limitam a visão. Não gostas do cinema de terror que se produz hoje em dia? Então, claro, não gostas de terror. Afinal, é tudo jump scares, atores terríveis e found footage, certo? E nós odiamos isso. Ergo, todo o cinema de terror é detestável.

Não. A atitude é que é detestável. É detestável para quem quer ser cineasta, e se acha superior a filmes que custaram mais a produzir (monetariamente e emocionalmente) do que qualquer bosta intestinal que ele/ela tenha gerado; é detestável para os críticos (*) que fazem o ordenado ao passar lama na cara de bom cinema (vem à mente a recente crítica do Público a Perdido em Marte); é detestável mesmo para quem só se quer perder nos mundos fictícios da sétima arte, e atira a sua opinião para o ar como senhor do mundo.

(*) E eu sou culpado disto. Já descartei muitas vezes comuns filmes por não me tocarem de forma nenhuma e não encontrar neles algo de redentor, para ficar estupefacto quando surge alguém que encontra nesses mesmos filmes pontos positivos. 

Ser absolutista numa opinião – porque uma crítica é uma opinião, seja ela profissional ou amadora – é errado. Exigir da audiência, do leitor, do público uma aceitação incontornável do nosso “ódio” é errado. Faz parte da cultura ultrajada que a internet pariu, e que cada vez mais nos limita a discussão por apenas acenarmos em concordância ou em negação. Tudo pode ser bom. Tudo pode ser mau. O que interessa é de que forma isso (ler: cinema) nos define a nós como seres humanos, e como tal estipula a nossa atitude no que toca às discussões mais banais sobre as nossas preferências.

Nunca odeies um filme.

Anúncios

2 responses to “Nunca Odeies Um Filme

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s