Zack Snyder e 300 (2006)

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Fico sempre parvo quando ouço alguém a referir-se a 300 como um mau filme. Mau filme?! Pseudo-intelectualismos temáticos à parte (*), a segunda longa-metragem de Zack Snyder é uma autêntica aula de cinema no que toca ao enquadramento da diegese visual, à montagem estilizada das sequências de ação, e ao uso exacerbado dos efeitos sonoros para veicular a brutalidade da cena.

Mais; fora esses aspetos técnicos, 300 transporta-nos ao pontapé para o mundo da antiga Esparta sem vacilar, catapultando o filme para o culto instantâneo com o icónico “THIS IS SPARTA!” berrado por um on-point Gerard Butler. O êxtase dessa cena por si só é suficiente para gerar um sorriso na cara de qualquer um, portanto como atirar este filme para o poço lamacento da desgraça destinado a um qualquer Transformers?

(*) Apesar da sua superfície de pipoca, 300 foi um filme bastante progressivo para a altura no que toca à sua política de géneros sexuais, tratando a sua única protagonista feminina com o respeito e mérito necessário para influenciar a narrativa de uma maneira substancial. Para além disso, é uma fantástica reflexão, ainda que simplista, acerca da tirania religiosa que corrompeu a nossa História, e que hoje em dia se volta a tornar relevante com os extremismos islâmicos. 300 trata a escravidão religiosa com violência, mas nunca se esquece de a mostrar a nu, com a selvajaria humana sempre no seu núcleo.   

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Sinto que 300 está destinado a uma paixão low-brow partilhada pelas massas masculinas que são o seu principal público-alvo, mas porque é que é tão mijado em cima pelos restantes estratos cinéfilos? É por ser do Zack Snyder, o não-amado cineasta da violência que tem estragado muitos franchises desde então? É por transpor quase risco a risco a estética de banda-desenhada, quase em detrimento do seu suporte cinemático? Ou por esses estratos simplesmente se acharem superiores a um filme com um gosto enorme pelo divertimento da audiência?

Sim, 300 apoia-se demasiado no ramo visual da fita, e termina com um anti-clímax pouco satisfatório (ainda que emocionalmente tocante, não vá ninguém admitir não ter chorado naquela cena de morte final), mas são falhas no que é de outro modo uma obra imensamente gratificante de ficção histórica.

O salto dado por Snyder desde o seu debut em Dawn of the Dead (2004) é enorme. Para além de mais confiante, o realizador mostra aqui uma noção superior de como enquadrar os melhores momentos do filme, seja através de silhuetas, long-shots falsos, ou o uso – na altura original – do slow-motion arrastado a meio de sequências com uma velocidade normal.

A caixa de ferramentas com que Snyder trabalhou foi basicamente a mesma, mas a forma como se aproveitou delas deu azo a inovações entusiasmantes, cujo crédito lhe tem sido vedado por ser considerado um realizador “menor”. Não que a qualidade dos seus últimos filmes seja justificável por aí além, mas não lhe retiram retroativamente o mérito.

Do mesmo modo, como esquecer a prestação fantástica de Butler como o rei espartano Leónidas? O ator esculpiu o seu corpo que nem Mr. Olympia, vestindo a pele tonificada de Leónidas como um body snatcher talentoso. Poucas são as personagens estóicas que realmente podemos qualificar como interessantes: o estoicismo inerente à representação passa muitas vezes por preguiça, ou então por uma total ausência de emoção que dificilmente entusiasma a audiência. Leónidas, no entanto, entra em guerra pelo bem do seu povo, desafiando os seus deuses corruptos no processo. Ao contrário do deus-rei Xerxes (e muitas outras falsas divindades que por aí andam), Leónidas importa-se com o futuro dos seus súbditos, tornando-se, no fim, uma espécie de Cristo para eles, ainda que despojado de qualquer subtexto religioso indesejado.

É muito fácil descartar 300 como um filme de pipoca de hora e meia, até porque a sua estética excessiva é extremamente fácil de absorver e digerir, quase que bloqueando o pensamento ativamente crítico sobre si mesmo. No entanto, não é por isso que ele deixa de existir, e que 300 deixa de ser um excelente filme de ação, com todos os seus abusos ofensivos e toda a sua virilidade inveterada.

Portanto, cantem os louvores a 300, porque ele merece. E se algum dia surgir alguém que não goste do filme, tentem perceber porquê; a discussão será certamente interessante. Mas se disserem que é um mau filme? Ora, puxem o pé para trás e berrem THIS IS SPARTA na fuça deles. Porque também merecem.

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