Não Temas o Que Fazemos nas Sombras

“We’re Werewolves, not Swearwolves.”

O Que Fazemos nas Sombras é uma comédia. É uma comédia de vampiros, com bruxas e lobisomens, e também humanos, às vezes. É a melhor comédia do ano, e por mais que esse termo seja sobrevalorizado e traia o pensamento original, não existe outra forma de elogiar o filme com a consideração que merece.

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Puras e duras comédias de terror são raras e quase nunca atingem os níveis dos verdadeiros clássicos, optando por um comentário falsamente meta-textual, ou por brincar dentro dos parâmetros previamente estabelecidos pelos ditos clássicos sem despoletar novas gargalhadas. Ao tentarem ter piada dentro do género de terror, esquecem-se de criar personagens interessantes, ou uma narrativa que cative a audiência.

Por outro lado, O Que Fazemos nas Sombras prova que a criatividade fala sempre mais alto mesmo num género estanque como o de filmes de vampiros. Desde a bomba atómica que foi Crepúsculo em 2008 que aprendemos a queixar-nos coletivamente de toda a ficção relacionada com os sugadores de sangue, como se a sua mera existência nos fizesse comichão. Louvávamos os antigos, aqueles em que os bichos ardiam ao sol como o fogo do inferno em vez de brilharem cristais amaricados. Chorávamos o romance adolescente, clamávamos o terror.

Ora, O Que Fazemos nas Sombras é genial porque brinca com estas expectativas contemporâneas. O único “verdadeiro” vampiro, Petyr – com as formas de um qualquer Nosferatu – está sempre na cave, fechado. Talvez por ser demasiado agressivo, talvez por ser tão velho e decrépito que as suas formas se dissipariam com um passeio noturno, mas a verdade é que o seu lugar cativo é sozinho no seu caixão subterrâneo.

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A tradição vampírica está reprimida nas caves de todos nós, e os vampiros que surgem no nosso dia-a-dia não passam de românticos desesperados à procura de uma boa festa onde partir chão e esvaziar tomates. Viago tem 379 anos, Deacon 183 e Vladislav 862, mas todos os três se caracterizam por essa procura juvenil por diversão.

Seria fácil, então, abanar a cabeça e resignarmo-nos a rever novamente o Nosferatu do Murnau. No entanto, O Que Fazemos nas Sombras consegue tornar esses clichés modernos em comédia brilhante, subvertendo as expetativas mal intencionadas da audiência em humor de situação francamente hilariante.

O estilo falsamente documental – ou mockumentary – que dá corpo ao filme intensifica ainda mais a sua noção de auto-paródia: quando os nossos vampiros encontram um gangue de lobisomens, são obrigados a pedir-lhes  para assinarem um documento de direitos de imagem, porque de outro modo não conseguiriam lançar o filme. Ou, também, quando durante um baile precisam de justificar a presença de um cameraman a outros monstros com vestidos napoleónicos.

Filmes como O Que Fazemos nas Sombras são raros, não só porque fazer comédia, comédia a sério, custa, mas também porque comentar de forma humorosa em tendências actuais pode sempre cair mal aos fãs dessas mesmas tendências. São empreendimentos arriscados e muitas vezes tentam jogar pelo seguro de modo a evitarem alienar uma audiência mais geral, perdendo, assim, metade da piada.

O Que Fazemos nas Sombras não. Com pouco mais de uma hora e vinte minutos de duração, são asseguradas as gargalhadas de minuto para minuto, com todas as cenas a funcionar como uma grande punchline de uma piada recorrente. Bons efeitos, excelentes personagens, e uma sequela garantida.

Os vampiros são outra vez cool.

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