Knock Knock e a subversão sexual

Neste thriller sexual de Eli Roth (conhecido pela série Hostel (2005)), Keanu Reeves protagoniza Evan, um homem de família com a mulher perfeita e os filhos perfeitos, a casa de sonho, o trabalho estável e o cão adorável. Tudo o que um homem pode querer e mais.

Até que, uma noite, com a sua família em férias, duas sensuais, jovens mulheres batem-lhe à porta. Então, seduzem-no numa série de jogos sexuais cada vez mais violentos.

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Os primeiros quarenta minutos de Knock, Knock são brilhantes. Pegam na fachada imaculada de uma família perfeita, de um homem “feliz”, e quebram-na com a simples sugestão de um encontro sexual escaldante, do pecado desejoso da pele feminina. O filme despoleta sensações polarizantes na audiência feminina e na audiência masculina (sem querer particularizar no que toca à orientação sexual de cada um, o que tornaria tudo ainda mais complexo), instigando a discussão sobre a banalização da vida adulta, sobre os instintos primais do homem.

Assim que Evan abre a porta a Genesis (Lorenza Izzo, indomável) e Bel (Ana de Armas, a perdição de qualquer um), encharcadas do cabelo aos pés, sabemos imediatamente o caminho que aquela pacata noite vai tomar. Por mais que Evan resista à tentação (afinal de contas, ele é feliz com a sua família), sabemos que, mais cedo ou mais tarde, vai cair nos braços daquelas deslumbrantes raparigas, por mais moralmente repugnante que isso possa ser.

Pior: chega uma altura que estamos ativamente a exigir que o nosso protagonista traia a mulher e os filhos, porque queremos ver os seus corpos desnudos, e viver através daquelas personagens a realidade aumentada que porventura o nosso quotidiano não permite.

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Este é um jogo intrincado que o argumento de Eli Roth possibilita, e quanto mais nele pensamos mais repugnados somos capazes de ficar. Afinal de contas, ninguém está naquela casa com Evan, nunca ninguém saberá que traiu a esposa! “IT’S FREE PIZZA!” berra ele a certo ponto, e nós concordamos. Quem não comeria pizza grátis? Intolerantes à lactose?

Então chega finalmente a cena de sexo, e após umas gloriosas boob shots que nos caem mal, a pele dos corpos suados é substituída por close-ups das suas faces torcidas em caretas demoníacas. A realização desta cena torna o encontro sexual numa pinada infernal, animalística, na qual Evan é reduzido à sua programação mais básica, e as raparigas se revelam como autênticas súcubos à procura de alimento.

Portanto é pena que a partir daí o filme regrida para um jogo do gato e do rato um pouco mais violento do que aquele a que estamos habituados. A tensão sexual desapareceu toda, atingindo o seu clímax em simultâneo com o das personagens, mas ainda temos uma hora de fita para terminar.

O aborrecimento derivativo que o jogo violento de Bel e Genesis carrega é de certa forma brilhante; pensamos que não vão existir consequências para aquele acto sexual, mas é claro que vão. Só não convencem por ser entediante, por não cativarem uma audiência que foi tão bem embalada nas brincadeiras sexuais da primeira hora.

Assim, a primeira metade de Knock, Knock é uma interessante meditação acerca do aborrecimento existencial de uma vida familiar e falsamente feliz, quiçá uma antecipada crise de meia idade. Infelizmente, o que se segue perde o impacto emocional ao não agarrar o espetador da melhor forma, até por não exceder de modo nenhum o que filmes superiores já atingiram (Funny Games (1997) e Hard Candy (2005) não passam despercebidos).

Por outro lado, é pizza grátis. Vale sempre a pena.

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