J. J. Abrams e Missão Impossível III (2006)

Após uma terrível sequela realizada por John Woo, o franchise Missão:Impossível vai parar às mãos do então savant televisivo J. J. Abrams. Foi, talvez, uma aposta arriscada, mas uma que respirou vida nova à saga tentativamente moribunda do espião atlético de Tom Cruise.

Em Missão: Impossível III, Ethan Hunt (Cruise) entra em conflito com um perigoso e sádico traficante de armas que ameaça a sua vida e a da sua esposa.

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A certo ponto na história dos filmes de espionagem (aproximadamente aquando da estreia do primeiro Bourne, em 2004), a excitação e emoção dos tiroteios e cenas de ação começou a não ser suficiente para empolgar a audiência. Era necessário algo mais, uma aproximação à vida íntima dos nossos protagonistas, que obrigatoriamente tinha que entrar em rota de colisão com o plot principal do filme.

Os nossos heróis de ação precisavam de ser mais que meras marionetas a derrubar uma organização sinistra; não podiam ser autênticos superhomens sem defeito. Então Abrams deu a Hunt uma esposa – uma autêntica mulher de armas -, uma aprendiz, uma série de amigos, e fomos transportados para uma realidade simpática de camaradagem profissional e amizades felizes.

Foi uma escolha acertada porque, de repente, sentíamos não só a morte das personagens, mas também o sentimento de perda que os seus colegas sofriam. A emoção era exacerbada pelo acumular de sensações, e ao mesmo tempo que nos relacionávamos com os protagonistas, aprendíamos a odiar ainda mais o vilão.

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As histórias de destruição global eram atiradas para segundo plano; o Owen Davian de Philip Seymour Hoffman (o melhor antagonista da série até à data, sem sombra de dúvida) focava-se mais em destruir os nossos heróis do que no domínio global. O impacto de termos Hunt arrastado pelo globo à procura da mulher, ao mesmo tempo que perseguia a fugidia Pata de Coelho (*), é muito maior do que tê-lo apenas a derrubar outro plano-mestre de destruição mundial.

(*) A mystery box deste filme. Abrams adora, de corpo e alma, esta ferramenta narrativa, a de criar um objeto misterioso que os protagonistas têm que perceber ou alcançar ao mesmo tempo que as suas relações são adensadas. Por ser algo tão indefinido, é fácil de perceber, permitindo um foco na ação e nas personagens sem paralelo. O que é a Pata de Coelho? Ninguém sabe, não interessa. 

Fora este desvio narrativo – que também caracterizou o reboot do James Bond em Casino Royale, também de 2006 -, Missão:Impossível 3 devolveu ao franchise a adrenalina que Brian De Palma tinha encetado na entrada original, no ano longínquo de 1996.

Dez anos é o suficiente para muito mudar, e enquanto De Palma primava pelo suspense e pelas sequências de cortar a respiração, Abrams prefere violentas perseguições pedonais e assaltos a arranha-céus em que Hunt se atira de prédio em prédio como um Homem de Ferro sem propulsores de ficção-científica. Apesar disso, o realizador não se esquece de construir a tensão necessária nestas cenas, estabelecendo sempre com mestria o número de personagens em cada uma delas, a geografia, e a ação que nelas decorre sem tornar nada confuso para o espetador.

Missão:Impossível 3 é um filme que nunca para, uma peça de cinema de ação pura que se constrói com progressivo frenesim adrenalínico, com cada cena a estabelecer a próxima, e a próxima, sem nunca ficarmos perdidos no poço agoniante do aborrecimento expositivo.

A verdade é que nem tudo faz sentido neste debut cinematográfico de J. J. Abrams (plot holes ficam suspensos no ar, sem resolução), e alguns podem-se queixar do estilo mais in your face desta segunda sequela, que contradiz a suavidade refinada do primeiro filme.

Mas, no fim, Missão:Impossível 3 é um dos melhores da série, repleto de excelentes sequências, uma narrativa com a velocidade de um TGV, e uma memorável prestação do Sr. Hoffman, que dá vida ao melhor vilão do franchise.

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