Spectre e o Regresso ao Passado

Se há algo que define as aventuras de Ethan Hunt em Missão Impossível são as sequências progressivamente menos plausíveis que os filmes nos vão apresentando. Desde assaltos à CIA, a B&Es a arranha céus colossais como o Burj Khalifa até ao mais recente tiroteio na ópera de Viena; Missão Impossível tem uma identidade claramente definida.

Por outro lado, o que define 007 não é nada mais que Bond. James Bond. O que acontece quando isso não chega?

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Spectre surge como um ponto de convergência narrativa entre os três filmes anteriores de Daniel Craig, na tentativa de criar, em retrospetiva, uma saga épica de amor, traição, vingança e espionagem com pathos e humor. Infelizmente, tal não passa de uma mera tentativa incoerente: somos obrigados a relembrar os acontecimentos de Casino RoyaleQuantum of SolaceSkyfall numa sucessão sensaborona de cenas expositórias sem real tensão.

Pior, o plot do filme em si é apenas um recalcar ‘modernizado’ das aventuras passadas de Bond (assim como de todos os clichés de ação imagináveis), desde a misoginia inerente ao seu encontro sexual com a viúva de Monica Bellucci (*) até ao vilão protagonizado por Christoph Waltz, carismático mas sem grande presença para além das três cenas em que aparece no ecrã.

Sim, Waltz brilha no papel, mas a sua personagem dificilmente é memorável, não só por ter motivações risíveis mas também por não ter grande agência no que toca aos azares de Bond. Pensem na cena de tortura brutal com Le Chiffre em Casino Royale, ou o monólogo inicial de Silva, o vilão aterrorizante de Javier Barden. Waltz, em Spectre, não tem nada mais que uma excelente cena introdutória, perdendo-se no nevoeiro narrativo entediante que se segue.

(*) Aqui, sim, os argumentistas (todos os quatro) deviam ter-se recordado da tridimensional Vesper Lynd de Casino Royale, não como mártir romântico do espião britânico mas como uma Bond Girl tão emocionalmente cativante quanto é bela.  

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Tudo em Spectre é oldschool. É, sem dúvida, essa a intenção de Sam Mendes e a restante equipa de realização. No entanto, em vez de recuperarem a diversão campy que os filmes antigos com Sean Connery carregavam nas mangas, tornam este novo Bond numa homenagem amadora aos clássicos que o criaram.

Apesar disso, é difícil não apreciar o carisma de Craig no papel. O ator britânico traz uma fisicalidade ao papel que os seus antecessores não possuíam, brilhando em cenas de ação como o encontro mano-a-mano com Mr. Hinx (Dave Bautista, que continua a provar os seus bona fides como ator) no comboio. Craig tem um ar violento mas charmoso, e por mais que a trama se torça em nós impossíveis de desatar, nunca deixamos de olhar para este Bond com atento fascínio.

Léa Seydoux também enfeitiça como Dr. Madeleine Swann, a filha de Mr. White (não o nosso amigo Heisenberg, mas um dos vilões inconsequentes de Quantum of Solace de quem ninguém se lembra), que pesca o coração de Bond sem grande esforço. Apesar da credibilidade deste romance ser quase nula, a química entre a atriz francesa e Craig é indiscutível. As cenas entre ambos são, na sua maioria, agradáveis, com particular destaque para um apaixonado jantar que faz lembrar o encontro com Vesper Lynd em Casino Royale.

Para além disso, também se ressalvam alguns aspetos técnicos, como a infecciosa sequência inicial, filmada num contínuo long-take. Esta escolha captura de imediato a essência de Bond e da geografia do México, aproveitando a celebração vibrante do Dia de los Muertos para criar uma aventura quase stand-alone do agente britânico. Não há Roger Deakins (demasiado ocupado com o delicioso Sicario), mas Hoyte van Hoytema é um competente substituto.

O tema principal de Sam Smith é igualmente cativante. Os créditos iniciais são uma marca dos filmes do 007, e os de Spectre catapultam-se de imediato para o topo da lista, não por incluírem imagens incrivelmente sexuais (a fazer lembrar hentai com polvos), mas pela música sensacional de Sam Smith.

Será Spectre o fim do Bond de Daniel Craig? Dificilmente, já que o ator tem mais um filme no seu contrato. Mas a próxima entrada na saga do agente britânico precisa urgentemente de nova vida, de uma narrativa intrigante que não volte ao poço rançoso da infância do espião, seja ela a mansão de Skyfall ou os vinte e três filmes precedentes.

Entretanto, mais vale ir ver o Casino Royale de novo.

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